«Sozinho, um homem ganha espessura, / em grupo perde-a — e ganha apenas companheiros.» GMT

terça-feira, Abril 01, 2014

Steve McQueen's 12 Years A Slave

Steve McQueen, realizador de 12 Anos Escravo
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Filme denso, brutal e perturbante, que mostra a que ponto o ser humano pode ser cruel e infligir sofrimento atroz a outros seres humanos. A forma como está realizado por Steve McQueen faz a diferença: envolve e causa forte impacto no espectador.

Não há paninhos quentes. Há emoções fortes. Sentimos e "vivemos", numa atmosfera opressiva e de enorme violência psicológica/emocional, o desespero de quem se vê à mercê da tirania, da irracionalidade e da selvajaria sem perdão.

Recorde-se que acabou por ser premiado como melhor filme no Óscar 2014. Ganhou ainda os prémios Roteiro Adaptado, Melhor Actriz Secundária e “Melhor Filme”.

O prémio de Melhor Filme é também o primeiro Óscar de Brad Pitt, que é produtor de 12 Anos Escravo. Realizada por Steve McQueen, a obra é baseada nas memórias de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), negro livre do Norte dos Estados Unidos que é sequestrado e vendido como escravo.
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Entrevista
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segunda-feira, Março 31, 2014

Martin Scorsese's The Wolf of Wall Street

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The Wolf of Wall Street é brutal, ousado, vertiginoso, sem panos quentes (cru), qualidade que aprecio num filme. Baseado em eventos reais, há dinheiro, sexo e drogas em quantidades industriais. A natureza humana no seu esplendor, potenciada pelos meios materiais e pelo poder.

Ao mesmo tempo que se simpatiza com a força, a resistência, as origens humildes e a ambição do protagonista (não se consegue antipatizar com Jordan Belfort interpretado por Leonardo DiCaprio) é chocante ver que não olha a meios para atingir os seus fins.

É elucidativo quanto à forma selvagem (prepadora) como funciona certo sistema financeiro, para enriquecimento de alguns, à custa de muitos - não se pode deixar de pensar na actual crise, que estamos a pagar, por causa da ganância (e concentração de riqueza) em termos absurdos e grotescos (regulação e legalidade precisam-se). Interessa acima de tudo vender bem, mesmo que seja lixo (produtos tóxicos), simplesmente enganando/roubando os outros com a maior das alegrias e naturalidade.

Grande filme realizado pelo mestre Martin Scorsese, sendo também produtor em parceria com Leonardo DiCaprio. Três horas que passam num instante. Saí da sala convencido que tinham passado apenas cerca de duas horas... pensei que o relógio do carro estava na hora antiga. Sai-se também da sala com muito para reflectir sobre o materialismo extremo (ter) e a valorização da imagem/personalidade/fama (acima do carácter ou do ser) porque o que importa é vender (parecer).

Hoje, vende-se, compra-se, vota-se e até se ama pela imagem, paleio e primeira impressão...

NOTA:
não estou aqui a fazer leituras inquinadas ideologicamente, nem a condenar o mercado (justo) nem o consumo (moderado), quando são positivos e benéficos para as pessoas, individualmente, e a sociedade em geral. Nem tão pouco a querer mal ao dinheiro, porque ele dá jeito e conforto, não sejamos hipócritas. E muito menos com falsos moralismos quanto às outras duas realidades salientes no filme, sexo e drogas, que são da conta de cada um. E viva a liberdade e as oportunidades para cada pessoa alcançar os seus sonhos e, no reverso da moeda, assumir as suas responsabilidades.

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Trailer

domingo, Março 30, 2014

Liberdade de escolha do vício

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Não fumo, mas concordo que cada qual tenha direito a escolher como viver (com prazer) e como chegar/enfrentar o fim.

Apenas peço que se respeite a liberdade de quem tenha escolhido outro vício e não quer fumar passivamente, sem a liberdade e o prazer gozados pelo fumador, liberdade e prazer a que tem, repita-se, direito ;)

sábado, Março 29, 2014

«Falar de coisas concretas não adianta nada»

«É fundamental o tempo não produtivo, o tempo da cultura», defende o escritor Gonçalo M. Tavares

Ainda no âmbito da edição do Festival Literário da Madeira 2014, Gonçalo M. Tavares terminou a sua conversa, a respeito do seu livro Atlas do corpo e da imaginação, dizendo que é preciso «perceber as essências nestes tempos mais violentos, economicamente».

E, por vezes, o «essencial está na periferia», referindo que o «imaginário tem a ver com o desviar do olhar para o que está à volta e além do que é mais óbvio e dominante», seja numa imagem ou num texto. Significa «ver outra coisa que não nos é mostrado» ou transmitido.

Para o escritor, «ler é mais ver imagens à volta da frase do que ler a própria frase.» Por isso, o «bom leitor é aquele que não fica só na frase que lê». Bem como uma «imagem também tem outras imagens à volta.»

Ao longo da conversa, Gonçalo M. Tavares foi comentando uma série de imagens que integram o Atlas do corpo e da imaginação, tendo sublinhado que se «deve parar nas imagens», saber «pensá-las e digeri-las». E «não dizer sempre formidable às imagens que passam à nossa frente».

No seu entender, «falar de coisas concretas não adianta nada», querendo dizer que os «artistas devem ter entrada na actualidade de um forma diferente, para acrescentar algo», de modo a não entrar em cima do imediato.

Define como «fundamental o tempo que não é produtivo, o tempo da cultura», apesar de ler ser um «luxo existencial», que não existe para quem as necessidades básicas, de sobrevivência, satisfeitas (embora mesmo em tempos de prosperidade, o consumo de cultura no País não tenha sido, proporcionalmente, muito diferente). Sustenta que a «pobreza não tem tempo» e «não pode esperar». Exemplificou com o assalto ou «transferência massiva de macieiras» desde 2008, em que as pessoas, para acudir situações urgentes, não vendem apenas as maçãs, mas também as próprias macieiras, que lhes asseguraria o futuro.

Ora, «ler não dá algo de imediato», acrescentando que «cultura é o contrário de informação», isto é, «cultura são informações digeridas ao longo do tempo». Em tempos de crise «desvaloriza-se certas actividades que não dão fruto de imediato». Por isso, «ler é associado a uma actividade inútil».

Falou da importância do «decidir sobre o que pensar», para não se deixar levar no ruído da actualidade, que muitas vezes não traduz a realidade, mas que ocupa as conversas e o pensamento das pessoas, com a tendência a uniformizar tanto as conversas como o pensamento. Com toda a gente a falar e a pensar os mesmos temas e assuntos.

Por fim, uma nota sobre a importância das «referências», que são um ponto fixo, que são feitas para períodos de crise, com o efeito de «tranquilizar» as pessoas. Daí defender que «não se devem mudar em tempo de crise.» Apelidou isso de «absurdo». As leis, «a voz colectiva» que «dura no tempo» («só me muda quando é melhor ou aparece algo totalmente novo» - as «ditaduras vivem de mudanças repentinas de lei»), são um importante referencial («impõem um conjunto de relações entre as pessoas»), notando que a Europa tem as leis com que mais se identifica.

No entanto, estão a acontecer mudanças para leis menos humanistas, com o económico a se sobrepor à política, o que «é perigoso». Tal como quando o militar se sobrepõe à política. As leis nem sempre são éticas e boas, já que são frases escritas por pessoas, sendo importante «saber quem as escreve».

Alertou ainda para o facto de se dizer "isto é o mal" é «começar a fazer pontaria», mas que o «mal é mais um questão "do quê" e não "do quem".»

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A propósito:
«Cultura permite que as pessoas aumentem a lucidez»
Arte não se submete a nada nem a ninguém
Portugueses não olham para a cultura como bem essencial 

terça-feira, Março 25, 2014

Cultura, a «única eternidade terrena»

"A única eternidade terrena é a cultura." — Adriano Moreira na Visão #1098 de 20.3.2014
nota:
na mesma entrevista, pouco depois da frase citada, afirma o seguinte: «A sobrevivência é o único inferno que tem de se viver».

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A propósito:
Portugueses não olham para a cultura como bem essencial 
«Cultura permite que as pessoas aumentem a lucidez»

segunda-feira, Março 24, 2014

Solitude


«Sozinho, um homem ganha espessura,
em grupo, perde-a — ganha apenas companheiros.
E a aprendizagem da sabedoria não se acompanha
como se acompanha a aprendizagem de uma técnica manual
— pois a sabedoria não é uma técnica manual.»

Gonçalo M. Tavares
Uma Viagem à Índia
p. 268, Canto VI - 56, Editorial Caminho 2010, 1.ª edição

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Recorde-se:
«Solidão favorece intensidade do pensamento»
«A cultura permite que as pessoas aumentem a lucidez»

domingo, Março 23, 2014

Arte não se submete a nada nem a ninguém

«A arte é aquela que não se submete a nenhum regime, nem ao revolucionário» (Raquel Varela) e «funciona melhor como contrapoder» (Jorge Sousa Braga): é «território do pensamento» e este tem «poder revolucionário» (Eduardo Agualusa)

Embora no entender de Ricardo Araújo Pereira, a frase de Bernardo Soares «todos os revolucionários são estúpidos», retirada do Livro do Desassossego, seja «mais uma posição estética do que ideológica», não deixou de resumir a questão desta forma: «o curso do mundo é uma onda de tsunami e pensar condicioná-lo é estúpido.» E concluiu que o mundo é para ser contemplado.» Isto numa conversa cruzada integrada no Festival Literário da Madeira 2014, com moderação de Paulo Cafôfo, presidente da autarquia do Funchal, no dia 22 de Março, no Teatro Municipal Baltazar Dias.

Antes disso, a historiadora Raquel Varela, começou por reconhecer que «alguns são» estúpidos, mas que os revolucionários se distinguem por «não se enganarem a si próprios». Os revolucionários são os que «dirigem» as revoluções. Estas, que são «inevitáveis e ocasionadas dentro de regimes déspotas», são feitas pelo povo (ao subscrevê-las, ao lhes dar carne, diria eu...). E deu conta de vários exemplos ao fazer um périplo pelas revoluções do século XX.

O humorista citado referiu que «às vezes desistir é mais ajuizado do que interferir», já que «aleija menos e provoca menos desilusões». Sobre o poder do humor, disse que «há coisas que não consigo combater», dando conta dos limites revolucionários da comédia e «reconhecendo a impotência». Apesar disso, o humor «torna a derrota mais doce ou menos amarga». É um «prazer e transgressão na cara do medo». Remataria assim: «trabalho com o meu ponto de vista, a minha perspectiva e sou livre para falar sobre o que entender. O meu trabalho é fazer rir as pessoas da maneira que eu quiser».

O poeta portuense Jorge Sousa Braga arrancou com um verso de Vladimir Maiakóvski, «a canoa do amor quebrou-se contra o quotidiano», e colocou a questão num outro plano, ao dizer que são importantes as «pequenas revoluções interiores no quotidiano.»

José Eduardo Agualusa considera que «não há mais nada de subversivo do que o riso», mas Ricardo Araújo Pereira opina que «este não tem tanto poder.» É uma espécie de «arma dos fracos porque não têm acesso às outras armas que matam mesmo.» Para o humorista, a «comédia não tem poder real», embora «aborreça um bocadinho». E ilustrou com uma metáfora: «usar a comédia para derrubar um regime é usar a doçaria conventual para ir à lua.» Tem influência mas não sabe até onde.

Jorge Sousa Braga diria que arte «funciona melhor como contrapoder.» «A arte é aquela que não se submete a nenhum regime, nem ao revolucionário», defendeu Raquel Varela. Sendo a arte «território do pensamento», como colocou José Eduardo Agualusa, esse pensamento tem «poder revolucionário».

O escritor angolano afirmou que a revolução de 1974 começou com a «poesia e um movimento cultural». Raquel Varela encontra na miséria ou na guerra razões objectivas que funcionam como detonador das revoluções, mas que não sabemos quais as razões subjectivas, a ver com a dimensão humana, com os limites, a humilhação, a injustiça, entre outros factores.

Ricardo Araújo Pereira considera «estúpida» a violência, sendo o humor uma forma de «provocar convulsão física sem tocar» nas pessoas. E até pode ser «agressão sem tocar» fisicamente, como o caso do escárnio. Daí considerar que o «humor partilha a mesma estrutura do mal», mas que é o «último reduto da liberdade e da resistência.» Raquel Varela deu a nota que a «violência não faz parte da revolução e acontece mais por parte da contra-revolução.»

A historiadora deu ainda conta que as «pessoas acreditam na natureza humana», mas «eu não». E explicou: «não vale a pena idealizar as pessoas», até porque «a maioria das pessoas entrou no 25 de Abril [de 1974] com a mesma coragem com que tinha medo antes», durante a ditadura. O povo, o colectivo, as massas são a necessária presença para confirmação das revoluções pensadas por uma elite, acrescentaria eu. E rematou com um «nós não somos», porque há uma diferença entre ser e estar.

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A propósito:
Arte é independência

quarta-feira, Março 19, 2014

«Cultura permite que as pessoas aumentem a lucidez»

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À revista Mais do Diário de Notícias da Madeira (16 de Março de 2014), o enorme escritor português Miguel M. Tavares, falou sobre cultura e literatura.

Nem só de pão vive o homem: «Quando uma pessoa lê um livro, vê uma peça de teatro ou um filme, não é recompensado monetariamente. Mas com o tempo, a cultura que vai adquirindo, os livros que lê, etc, vai ter consequências também ao nível económico, e mais importante até do que isso, terá influência na formação humana da pessoa, será melhor pessoa, se relacionar melhor com os outros...»

Daí que o escritor afirme que «a Cultura é que permite que as pessoas aumentem a lucidez», embora consciente que «se uma pessoa não tiver as necessidades básicas satisfeitas, falar de livros é quase um luxo.» Nem o próprio Miguel M. Tavares teria tempo e disponibilidade para escrever/criar se estivesse a pensar na prestação do frigorífico por pagar.

E disse mais sobre o papel da cultura: «Ou nós achamos que a cultura é uma coisa apenas para satisfazer alguns durante algum tempo, ou achamos que a cultura é algo que fica, que faz parte do património de um país. E eu acho que a cultura deve ser vista como isto, como qualquer coisa que, quer na Arte, quer na Literatura, vai dando algo às pessoas. É isso que vai acrescentando uma qualidade ao clima, ao tempo, ao temperamento das pessoas, etc. Portanto se um país parar de produzir cultura vai apenas depender das coisas naturais, do charme natural... Acho que o nosso país tem um charme natural, tem condições muito bonitas, mas acho que temos de acrescentar alguma coisa, acho que é o nosso dever...»

A respeito da literatura afirmou: «Gosto da ideia que a literatura faz pensar.» No meu entender, literatura "a sério"é aquela que, por ser substantiva (isto sem qualquer elitismo, pretensiosismo e apenas fundamentado na realidade factual, passe o pleonasmo). Dito de outro modo é aquela literatura que fica a ecoar dentro de nós, que nos transforma, que nos faz estremecer, que aborda os temas essenciais no que toca à natureza humana e à vida, que nos enriquece e desafia a crescer mentalmente. Numa palavra, que nos abre a mente e a alma.

O escritor acrescentou a respeito do seu conceito de literatura: «É evidente que eu gosto de contar histórias. O Senhor Valery é uma história, o Jerusalém, o Viagem à Índia são histórias. Eu não tenho nada contra as histórias e tenho muito prazer em contar uma história. Mas acho que uma história em literatura não pode ser contada da mesma maneira como é numa telenovela, senão há alguma coisa que está mal. A literatura é outra coisa, é uma história que nos mexe de uma forma um pouco diferente de uma história de televisão, e eu acredito nisso...»

E disse ainda a tal respeito: «Eu não gosto da literatura como passatempo. Acho que a literatura deve dar prazer e dá muito prazer, mas é um prazer que não é o mesmo de ver uma telenovela. Não pode ser a mesma coisa, não é uma história que quando acaba, nós desligamos a televisão e pronto, não pensamos mais sobre isso. Acho que a literatura conta histórias que, espero quando os leitores fecham o livro, ainda fique ali qualquer coisa para pensar, que a história não termine com o fecho do livro. Até, às vezes há algo de importante que começa depois de terminarmos o livro.»

terça-feira, Março 18, 2014

Meninos bandidos



Dead Combo têm cá fora novo álbum: A bunch of meninos (vídeo) O guitarrista Tó Trips explica a crítica puxada para título: “O título já é uma história antiga, de 2008, quando o nosso produtor e técnico de som, o Helder Nelson, numa viagem para a Holanda, quando íamos lá tocar, se referiu ao governo da altura: ‘Estes gajos são a bunch of meninos’ e a expressão perdurou até aos nossos dias e achámos por bem usá-la.”

Embora admitam a existência de metáforas políticas no álbum, o sexto de originais, afirmam que «não [é] um disco político» (revista Actual de 8 de Março de 2014). Verdadeiramente, um menino é um «gajo armado em mau, em alguma coisa que ao fim ao cabo não é», diz Tó Trips. «Dá-se a conhecer por isto ou por aquilo, mas no fundo é um menino.»

Pedro Gonçalves, o outro elemento do duo, refere que, «no texto do álbum há uma coisa um bocado reboscada. Falo de um mexicano com um casaco de pele de coelho. É uma alusão um bocado estúpida ao nosso primeiro-ministro... É, assim, o bandido.» Apesar disso, considera que têm uma «atitude política deslocada dos Dead Combo. Sempre concordámos que podemos ter a nossa atitude política como cidadãos, mas como artistas é outra conversa.»

O guitarrista Tó Trips acrescenta: «os meninos podemos ser nós. Na capa, estamos armados em maus... É uma encenação, uma ficção, uma história. Como aquela frase "o país está melhor, mas as pessoas não" [proferida por um parlamentar do partido do actual Governo]. Mas, afinal, que país é esse? Que ficção é essa? O país são as pessoas, penso eu.»

Recorde-se que, em Outubro de 2013, António Lobo Antunes escreveu na sua crónica, na Visão de 31 de Outubro de 2013: «Qual Governo? É que não existe governo nenhum. Existe um bando de meninos, a quem os pais vestiram casaco como para um baptizado ou um casamento".» Mais recentemente, o general Garcia dos Santos afirmou que os «políticos que temos hoje são uns garotos» (jornal I de 17 de Março).

Vídeo do tema A bunch of meninos.

domingo, Março 16, 2014

Conflitos internos do ser humano

Emir Baigazin
O cineasta cazeque estreou-se com Uroki garmonii (Lições de harmonia), um filme de que aborda a velha questão da sobrevivência da espécie humana, que expõe a própria natureza do ser humano.

Procurou «filmar a violência sem cultivar a violência», referiu em entrevista à revista Actual (Expresso), de 8 de Março de 2014. No sentido de o espectador se «sentir livre quando o filme acaba».

Depois de dizer «não me quero subjugar a um tema» e  no «cinema odeio os temas», diz o essencial: «O que me interessa são os conflitos internos do ser humano para lá de qualquer espaço, geografia ou situação: a sua natureza de predador, a sua capacidade de amar. Ou de matar."

Aprecio este ângulo de abordagem da Arte, no que tem de universal, de humano, de real e, inclusive, de estudo sobre a natureza humana, incluindo os mencionados conflitos ou inquietações internas.

A violência, no referido filme, é sugerida, já que o cineasta defende que «expressar a violência ou contemplar a violência no cinema é um perigo tremendo. Um centímetro a mais, um exagero a mais, é o grotesco que nos bate à porta. Quando o grotesco entra, tudo está perdido. O filme está condenado. Não há salvação que lhe valha.»

Refere que o cinema «se expressa para além da moral e da política», o que torna a Arte universal e intemporal. «O bem e o mal são como o dia e a noite, estão sempre aqui, para todos nós. Resta-nos tentar evoluir perante aquele facto.» É esta a esperança: evolução da humanidade.

Lições de harmonia não é um filme sobre a escola ou a adolescência, embora se passe na escola e o protagonista seja um adolescente. «Quis filmar o sistema escolar como o reflexo de um modelo que prevalece na sociedade. Um sistema de violência que faz parte da natureza humana. O que me interessa não é a guerra que estala entre aqueles dois rapazes mas sim a guerra interior do protagonista.» Afirma ainda que, na «escola, desde cedo, o que nos ensinam? A ser predadores.»

Sobre a adolescência diz que é um «período da vida obsessivo e, por isso, violento. Acho que nesta idade de formação da personalidade impomo-nos obstáculos e metas, nem sempre os melhores, e, dizem os psicólogos, isto leva-nos frequentemente a um estado de insatisfação que pode gerar depressão. Insisti muito nisto, filmando a vida na escola, a necessidade de ter boas notas, de ser o primeiro.» Ser o primeiro é muito diferente de cada qual dar o seu melhor, independentemente se esse melhor dar significa ou não ser o melhor. É preciso realismo, para não gerar obsessões e insatisfações.

E sublinha que não há ironia na palavra «harmonia» do título. Bem pelo contrário, o título é para «ser levado à letra», embora se trate, como escreveu o crítico Francisco Ferreira, de uma história de violência implacável sob o signo do darwinismo social (selecção natural e permanente luta pela sobrevivência).

quarta-feira, Março 12, 2014

"Depois" que poderia ter menos perdas e mais ganhos


Na série de fotografias que o Jornal da Madeira está a dedicar à obra feita, na rubrica "Antes/Depois" (isto é, Madeira Velha/Madeira Nova), chegou a vez da famosa e polémica proteção/estrada/promenade no Jardim do Mar, na página 3 da edição de 11 de Março de 2014. Muita tinta fez correr no início deste século.

Desde logo, a perspectiva das referidas imagens salienta o lado mais asseado, digamos, mas há outras perspectivas que mostram o menos "belo", nomeadamente da enorme e intrusiva massa de antifers. A paisagem natural, endémica e autêntica saiu maltratada...

A Autonomia foi, é e será fundamental para a Madeira, não há qualquer dúvida. Ser autonomista passa também por ter orgulho e defender o exotismo e a autenticidade do património natural das nossas ilhas, que também é o nosso sustento, além de ser parte da nossa identidade, já que é a base da actividade turística e do seu futuro.

A legenda das duas imagens salienta vantagens, algumas delas se calhar a serem potenciadas no futuro (fala-se em investimentos russos para breve, por exemplo), já que o retorno desta obra megalómana está por acontecer em termos de estabelecimentos comerciais e turísticos.

Não se referem, pois, as perdas. Além do investimento inicial na obra, está sujeita a desgaste em confronto directo com o mar (os enrocamentos têm "metido água"); cobriu-se toda a praia de calhau numa extensão de cerca de setecentos metros; comprometeu-se a actividade da apanha da lapa pelos locais; é uma obra exagerada na dimensão a contrastar com a freguesia pitoresca de ruas e becos estreitos; comprometeram-se as condições únicas da famosa onda do surf da Ponta Jardim, com consequências na economia local; entre outros prejuízos bem documentados, nomeadamente no arquivo deste blogue. Na altura, alguns defenderam a redução da dimensão da obra (nunca foram contra a protecção). Poderia ter havido maior equilíbrio entre ganhos e perdas.

Além de de tudo o mais, a maior insegurança do Jardim do Mar reside na estrada regional que lhe dá acesso, por causa das derrocadas. Deveria ter sido essa a maior prioridade, já que o penhasco sobranceiro ao referido acesso rodoviário apresentava e apresenta uma maior ameaça e insegurança do que o mar para a freguesia e os seus habitantes ou visitantes.

Poderia ter havido uma melhor ponderação, na altura. Uma promenade mais estreita, mais económica, com mais ganhos do que perdas, e que tivesse libertado algum investimento para dar mais segurança à estrada de acesso ao Jardim do Mar. Mas, o objectivo era ganhar 50 metros relativamente à linha de água, de forma a possibilitar investimentos (com as Leis nº54/2005 e nº 78/2013 sobre o domínio público marítimo, será vantajoso para a população ter as propriedades privadas pelo menos a essa distância do mar).

Parece razoável defender o investimento e desenvolvimento (sofisticação e comodidades para a população local) em equilíbrio com o acautelar do futuro da nossa economia (turismo) por via do património natural, que é impressivo e exuberante para quem nos visita. Desenvolver sem matar a galinha dos ovos de ouro (sem artificializar demasiado), por alguma tentação de ganância ou desvalorização da importância estratégica desse património natural.O segredo e a dificuldade está em conciliar as duas vertentes referidas.

Depois de muita atenção à sofisticação (muita dela absolutamente necessária, mas com algumas intervenções exageradas e desastrosas, nomeadamente na costa marítima) para a evolução das condições de vida básicas no arquipélago, é hora de defender com mais eficácia a natureza autêntica da Região, a nossa riqueza fundamental, além das pessoas, claro, com melhor critério e melhor ponderação face aos últimos 20 anos.

Uma última nota. A causa ambiental vale por si mesma, não é passível de ser misturada de algum modo com a luta político-partidária. A independência de causas e movimentos ambientais é fundamental. Só assim se obtém o necessário apoio dos cidadãos para essas causas e se ganha a credibilidade necessária na defesa do património que é colectivo.

sábado, Março 08, 2014

Poder libertador e curativo da música

Johnny Cash sobre o poder redentor (de libertação e salvação) da música

«Years ago you described music as "my magic to take me through all the dark places" when you were young. Can you expand on that?», perguntou Sylvie Simmons, em Agosto de 2003, na casa do músico em Hendersonville, no Tennessee, seis semanas antes do músico morrer.

Johnny Cash respondeu: "Yes, oh yes. I could wrap mysel in the warm cocoon of a song and go anywhere. I was invincible. I still can. It feels good. Feels good to be in a song. I can't explain that, but that's the way it is."

"So if you're not feeling good, singing makes you feel better?", questionou a entrevistadora, a que o músico retorquiu: "Yeah, it makes me feel better. Music is very healing. The stories they tell that you can relate to, those are healing too when hard times have come. There's a magic to music all right."

(MOJO #239, October 2013)

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A propósito:
Rock 'N' Roll rules 'n' resonates
Música, uma droga natural
Arte com fins terapêuticos

"I expect my life to end soon": última entrevista de Johnny Cash

sexta-feira, Março 07, 2014

Música, uma droga natural

The scientific power of music
Por que razão a música proporciona tanto prazer e é aditiva? Ouvir música estimula a produção de dopamina, apesar de a nossa sobrevivência não depender directamente dela.

O nosso corpo recompensa certos estímulos necessários à sobrevivência (para os procurarmos e, assim, sobrevivermos). Liberta-se o referido neurotransmissor chamado dopamina, um químico que nos faz sentir bem, em resultado de prazer.

A música altera, quimicamente, o nosso corpo e faz-nos sentir bem. Como proporciona prazer, procuramo-la mais e torna-se aditiva. Uma droga, natural, da felicidade. Isto embora apreciar música seja uma experiência subjectiva, interligada com experiências culturais e pessoais.

É esta a tese do vídeo aqui divulgado, uma explicação científica sobre o poder da música.

Além das questões científicas e químicas, o poder da música explica-se ainda pela dimensão cultural e pelo poder transformador. A música é muito mais do que sons e prazer em resultado de estímulos auditivos.

Mais:
The scientific power of music

Poder libertador e curativo da música (por Johnny Cash)
Rock 'N' Roll rules 'n' resonates (por Nick Cave)

quinta-feira, Março 06, 2014

Pode o dinheiro comprar felicidade?


Can money buy us happiness?
«In North America additional income beyond $75,000 (55.000 Euros) a year ceases to impact day-to-day happiness.»

Inversamente, quer dizer que se o rendimento for inferior a esses cerca de 55.000 euros anuais (cerca de 4.500 euros mensais) terá IMPACTO na felicidade no dia-a-dia... Então estou muito longe de me preocupar sobre o tipo de rendimento que não me acrescentará felicidade...

Seria interessante saber quantas famílias em Portugal têm um rendimento de 4.500 mensais...
Ora essa.

É interessante a tónica na recompensa obtida quando se dão prendas aos outros. Embora a abundância de dinheiro não torne, necessariamente, as pessoas mais generosas, mas reconhece-se que o dinheiro contribui também para a disponibilidade e facilita a concretização da generosidade.

Mais:
Can money buy us happiness?