«And some people say that it's just rock 'n' roll. Oh but it gets you right down to your soul» NICK CAVE

domingo, maio 10, 2015

«Fado é Rock 'n' Roll»

Camané é fado com atitude, entrega, visceralidade e densidade como no rock 'n' roll - é um fado que, tal como o rock 'n' roll, não é para qualquer um

Lá vai o tempo em que o fado era sinónimo de música popular num sentido mais ligeiro, vulgar ou popularucho. «[E]u sempre acreditei no fado como uma música de grande qualidade», declarou Camané numa entrevista em 2013, para precisar depois a sua ideia: «O fado não é uma música de cantiguinhas ligeiras: é coisa pesada, rija, forte, com qualidade.»

A propósito do novo álbum, Infinito Presente, na Visão (30.4.2015), o fadista afirmou: «O fado é rock 'n' roll! Quando se começa a cantar tem que se ter aquela coisa rasgada do rock 'n' roll. (...) Os miúdos [novos intérpretes] podem vir com essa atitude no fado, e isso é que é pesado, isso é que vale para fazerem o seu caminho. Acho que foi isso que eu fiz.»

Outro músico, o brasileiro Filipe Catto, dissera ao Público (16.11.2014): «O fado enquanto espírito de algo é o que existe de mais rock’n’roll. E eu estou indo cada vez mais fundo na minha origem, que é o rock’n’roll e o fado simbolizando essa música exasperada que é o samba canção, o tango, o bolero, a toada, o samba. Tudo isso para mim carrega esse elemento de exasperação que é o fado. E o rock’n’roll como postura de entrega e visceralidade absoluta.»

A entrega, a visceralidade e a autenticidade são características comuns ao fado e ao rock 'n' roll. «Eu cresci no meio do fado, tenho uma forma muito característica que é a de ser fadista: a honestidade e a verdade são muito importantes em quem canta este estilo», expressou Camané. «E o Zé Mário [Branco] percebeu isso bem: aprendeu a gostar do fado por causa do [Alfredo] Marceneiro, tal como eu…» (entrevista de 2013). «Para se cantar fado, é essencial ser fadista, cantar com verdade.» «Servir os fados e não se servir dos fados. Para mim cantar é como beber água ou respirar: faz parte da minha vida.» O que é cantado com o coração, chega aos demais corações em ligação directa.

Ainda a sobre o «cantar com verdade», numa entrevista recente ao jornal I (1.5.2015), Camané referiu: «quando vou para o palco interiorizo o que vou cantar e depois não penso em nada, entro no registo emocional de cada fado que estou a cantar.»

O fadista sublinha esta ideia no documentário (making of) de Infinito Presente, parte da edição especial do álbum. «A partir do momento que existem palavras e histórias para contar é preciso que isso seja mais importante do que a exibição vocal.» O intérprete é um veículo e está ao serviço da arte, da emoção, que é algo superior à sua individualidade: «eu não tenho importância nenhuma.»

Insiste que a «ideia é não haver exibição» e «consiga, acima de tudo, sair de mim [libertar-se do ego, de pensar em si], para dar importância àquilo que estou a dizer.» Isto porque «quem está a ouvir não está à espera que eu faça malabarismos», está antes «à espera de ouvir as palavras». Evita, por isso, o já mencionado exibicionismo, para não criar ruído à transmissão da mensagem, que assim chega com mais «facilidade» e «clareza». Tal humildade e sobriedade também elevam Camané e elevam o próprio fado.

Além desta humildade e da referida atitude rock 'n' roll de Camané, que é de uma geração que cresceu a ouvir rock e outras sonoridades contemporâneas, ele «sabia que o fado não é uma coisa popular [ligeira ou folclore]. É música popular portuguesa, mas é outra coisa, é urbana, de Lisboa, e tem um estilo próprio. Não é parecido com mais nada» (jornal I, 1.5.2015).

O fado reflecte uma dada subcultura, cujo nível tem vindo a ser elevado, com mais elaboração e sofisticação. Isto desde que o fado conheceu, por exemplo, novos compositores como Alain Oulman, intérpretes como Amália ou Camané, letras compostas por grandes poetas ou a partir de poemas destes (quando Amália cantou Camões foi um escândalo), executantes instrumentais mais inventivos (como aqueles com que Camané conta: José Manuel Neto na guitarra portuguesa, Carlos Manuel Proença na viola e Carlos Bica no contrabaixo) ou produtores como José Mário Branco, que não permitem haver "azeite" («com o José Mário Branco sei que não há espaço para a ligeireza, a música ligeira, não há "azeite"...», sublinha Camané na já citada Visão de 30.4.2015.)

O fado é uma subcultura num país que, em termos de consumo cultural, é muito superficial, ligeiro e sem preocupação de qualidade e refinamento. Nesse contexto "pimba", Camané é um artista underground. Faz parte de um nicho cultural específico, subterrâneo, urbano. Não é música «fast food» (ligeira ou foleira); tem espessura, profundidade, densidade. O fado, desde que não meta «azeite», está claro, é «música pesada» e de «qualidade».

O fado, com a sua base popular e os seus standards, permite a já referida elaboração (riqueza, qualidade) técnica ao nível da composição, conteúdo poético, execução e interpretação. Como confirma o próprio Camané: «o fado dá para tudo, dá para encaixar tudo, ... é impressionante. Em muitas coisas, o fado é como o jazz. O jazz, e os blues, também têm uma base, os seus standards, mas a partir daí permitem a liberdade toda... É muito assim que vejo o fado» (Visão 30.4.2015). Ora, uma liberdade criativa também inerente ao rock 'n' roll.
--
fotografia: olho de fogo Maio 7, 2015

domingo, março 15, 2015

Solidão radical inerente à existência humana

Carlos Castán, autor de «Má Luz» (La Mala Luz), a sua estreia no romance
photo copyright

Não é novidade que nascemos sozinhos, estamos sozinhos e morremos sozinhos. No sofrimento e na alegria estamos a sós com o nosso pensamento e o nosso sentir.

«Solidão radical» é um conceito que surge em Má Luz (La Mala Luz no original), do escritor e professor de Filosofia espanhol Carlos Castán, cujo romance narra uma longa travessia existencial, sobre o desejo e a busca de um sentido para a vida.

A dado momento, lemos sobre a desesperada necessidade de uma «presença próxima para não sucumbir ao pânico» (p60). Logo a seguir, uma personagem refere que, «[n]a realidade, não se pode fazer muito mais. Foi em situações assim que mais claramente vislumbrei a radical solidão de um ser humano, de qualquer ser humano, e a impossibilidade de uma comunicação real. Não há derrame de nervos nem de sangue, não há forma de fazer esse medo sair da jaula. Duas pessoas podem inclusive abraçar-se uma à outra, apertar as mãos com força, mas uma não consegue penetrar no inferno da outra, nem sequer compreendê-lo remotamente. É impossível» (p61).

E continua: «Para além de uma rudimentar empatia que praticamente se esgota na certeza de que o outro sofre, assim, em abstracto, nada há que se possa fazer para se conseguir entrar no pensamento alheio, no medo alheio, e lutar com todas as forças, como muitas vezes quereríamos, contra os fantasmas e as tempestades que ali se acumulam.»

Ideia (facto) que é exemplificada: «É uma profunda e dolorosa verdade aquela visão de Goethe segundo a qual a vida interior seria uma espécie de cidadela fortificada na qual ninguém pode realmente entrar, tão-pouco sair dela, embora às vezes a falsidade da linguagem construa a ilusão do contrário. No meio da noite dois amigos abraçam-se em pijama, despenteiam-se na brincadeira, dizem um ao outro palavras de lealdade e coragem, mas só um deles se rasga por inteiro e treme por dentro, será um apenas que terá suor gelado» (p61).

No fundo, nunca chegamos a conhecer ninguém verdadeiramente, nem mesmo a nós próprios, por maior auto-conhecimento que tenhamos. Procuramos contrariar tal realidade e compreender o outro através da comunicação, de várias formas, mas é sempre insuficiente. Nunca é total, nunca é pleno.

A presença, o abraço, o toque, a palavra de conforto e o amor são a proximidade, a solidariedade e o alento possíveis entre seres humanos. O trabalho e o esforço existenciais são, a tempo inteiro, exclusivamente nossos. Ter esta consciência é importante para se aceitarem tais circunstâncias existenciais e, assim, convocarmos os nossos próprios recursos de sobrevivência: procura de equilíbrio e bem-estar interiores, que pode incluir o recurso a «meios inspiradores».

Dizem-nos que ninguém nos pode salvar a não ser nós mesmos. Em grande medida é verdade. But with a little help from my friends... it might be more comfortable... E esses amigos de que fala este tema podem também tomar a forma de uma frase, um verso, uma música, uma imagem... que nos podem inspirar e salvar, mesmo que o derradeiro «click» tenha de ser sempre nosso, interior, próprio, solitário, autónomo.

(E que emocionante e intensa a actuação de Joe Cocker linkada no parágrafo anterior. A diferença que faz quando o artista confere emoção e alma à sua performance, neste caso com tripas e coração. Inspirador.)

quarta-feira, dezembro 24, 2014

Qualquer acto altruísta tem um retorno para quem o pratica

Cristiano Ronaldo, diz quem sabe, ajuda muita gente sem qualquer publicidade de tal facto (apesar de algumas dessas acções serem publicitadas). Uma ajuda desinteressada e genuína, sem querer nada (material ou imaterial) em troca

Emídio Carvalho, no livro A Sombra Humana, aborda a questão do altruísmo, de uma forma frontal e que aprofunda e complementa o que eu escrevi no texto Não há altruísmo que não tenha um egoísmo.

Um texto com potencial para polémica, aberta ou não, porque é uma área sensível e subtil: mexe com as luzes e sombras de cada pessoa. Com sentimentos que nem estamos conscientes deles. Questionar, aprofundar ou fazer juízos nessas áreas é altamente arriscado. Depressa pode levantar um sentimento de ofensa e até de ameaça ao nosso ego, com perigo de trazer instabilidade ao ambiente seguro que nos esforçamos tanto por criar.

Como se pode questionar outras facetas da natureza do que é positivo, bom, louvável? Mas, lendo mais fundo, será positivo fazer a prova dos nove ao nosso altruísmo. Para termos a certeza que a nossa bondade, a dádiva ao outro, tem apenas subjacente um sentimento puro e honesto, a partir do coração.

Vou começar logo pelo cerne da questão e pela prova dos nove colocada por Emídio Carvalho: «se o trabalho que faz [de ajuda e assistência aos outros] passa despercebido, se não sente a necessidade de informar os seus amigos e conhecidos, então continue! Está a prestar um óptimo serviço.»

E diz mais: «fazê-lo [envolver-se em projectos humanitários] pelo simples facto de querer ter a experiência, de ser útil sem esperar algo em troca, aí vale a pena.»

Salvaguarda de novo: «é importante ajudar quem precisa de ajuda, mas mais importante é verificarmos os nossos verdadeiros motivos

Alerta e aconselha: «Se está envolvido num qualquer projecto de ajuda aos mais carenciados verifique se comenta o seu envolvimento com outros. Se tem necessidade de fazer saber aos outros que está neste projecto é preferível que o abandone imediatamente pois está apenas a alimentar a sua Sombra.»

E pergunta: «quem, de entre nós, tem a coragem de admitir que por vezes (ou muitas vezes), faz o que faz por motivos menos íntegros [ou altruístas]?» Isto porque a nossa «sombra tem uma agenda diferente da do nosso ego. E tudo fará para conseguir os seus objectivos.»

E acrescenta: «Muitas das pessoas envolvidas em projectos humanitários têm uma necessidade de sentir que prestam, que são boas ou que valem enquanto seres humanos.»

Há mesmo estudos que conluem que o acto de dar (com o coração, sentido) é mais recompensador para o ser humano do que o de receber. Cabe perguntar: será que dou pela compensação que me traz, isto é, pelo que espero em troca, nem que seja emocionalmente, do acto de dar? No limite, qualquer acto altruísta tem um retorno (egoísmo ou recompensa do interesse individual) para quem o pratica. No filme Into The Wild há uma frase lapidar: «Happiness is only real when shared». A partilha é palavra chave.

Emídio Carvalho exemplifica a sua tese: «será que o fundamentalista que tenta desesperadamente converter todos à sua ideologia está convencido que isto é para o melhor bem de todos, ou será que o que o leva a agir assim são sentimentos de culpa, frustração, ansiedade e dúvidas existenciais?»

E continua: «É tão fácil ajudar os sem-abrigo, mais que não seja para que a nossa sombra absorva mais daquele sentimento de superioridade. Notei já diversas vezes que as pessoas que se envolvem em projectos de apoio aos sem-abrigo abandonam os mesmos em pouco tempo. Sem se aperceberem, as suas sombras indicaram-lhes que não têm necessidade de se sentirem superiores.»

Nicholas Mosley afirma que as «pessoas como os católicos e islamitas, são-no muito mais para poder pertencer a um grupo que ofereça um apoio emocional num mundo conturbado, do que por motivos de escolha feita depois de uma busca de verdade e significado na vida.» E «lá se vai por terra a teoria das revelações divinas e da integridade individual», nota Emídio Carvalho. Mas, a nossa tendência natural é «defender os nossos valores morais», as nossas escolhas, «justificando-nos por cada decisão». Mesmo que estejamos a iludirmo-nos. «Lembre-se apenas que a verdade nunca precisou de ser defendida», sublinha.

Emídio Carvalho adverte que devemos manter sempre presente que a complexidade do ser humano e da vida humana nunca serão completamente compreendidas. Por isso, «não nós podemos viver a fantasia de que sabemos muito bem quem somos e o que queremos.» Atenção àquilo que não é do agrado do Ego, isto é, «tudo o que é contrário àquilo que desejamos que os outros pensem de nós» e que nós pensemos sobre nós mesmos.

Mais perguntas: «Será que as pessoas que dedicam toda a sua vida ao serviço dos outros, vivendo sem qualquer conforto ou prazer, não o farão movidas apenas por uma enorme insatisfação, depressão e raiva? Será que o seu sacrifício é uma coisa assim tão boa? Será que é mesmo uma escolha? Será que a pessoa que ganha o prémio Nobel da paz não terá a necessidade de ser necessário? Será que estamos a ser cínicos ao tornarmo-nos conscientes dos valores opostos àqueles que expressamos conscientemente, ou será uma forma mais profunda de honestidade?»

Mais perguntas ainda: «Será que uma pessoa foi "santa" porque sacrificou a sua viagem nesta realidade em serviço aos outros? Será que a sua vida poderia ser tão tenebrosa que a única opção era não a viver? Será que um dos aspectos dos santos é que de facto não são capazes de viver a sua própria aventura nesta vida? E quem, entre nós, poderá fazer este tipo de juízo?»

E as perguntas continuam:

«Será possível que uma vida de boas obras pode existir lado a lado com uma vida interior carregada de sentimentos torturados? Não será possível que uma vida interior rejeitada, apesar de no exterior aparentar muita iluminação, possa mascarar uma sombra [interior] poderosa?» «Não podemos cair na tentação de subestimar o poder da sombra do ser humano.»

«Será que a humanidade é inerentemente boa? Seremos pessoas boas apenas porque apenas a nossa cultura nos criou assim? Será que é possível existir bondade sem o seu oposto? Será que uma bondade constante, ao longo de muitos anos, não pode tornar-se uma força demoníaca? Basta-nos olhar para a história da humanidade para ver que muitos dos actos bondosos tiveram o seu peso e preço.»

«Quantas pessoas não chegam à segunda parte das suas vidas sem uma certa quantidade de arrependimentos, rancores, ressentimentos, culpas e desculpas? E, contudo, na altura, pensámos que estávamos a agir para o melhor bem de todos, com a melhor das intenções.»

--
A propósito:
Não há altruísmo que não tenha um egoísmo

--
photo copyright

segunda-feira, outubro 13, 2014

Quando o alheamento é uma bênção

Rodrigo Leão em entrevista à Atual, revista do semanário Expresso, de 4 de Outubro de 2014

Compreendo muito bem Rodrigo Leão, que teve uma mãe santa, que o mandou ler livros, ouvir música e ver cinema, e uma vida (meio familiar e o sucesso alcançado nos Madredeus) que lhe facilitou a independência (alheamento) face à política*.

O Ser Humano está acima da política. Os criadores podem criar sem a política e apesar dela. «O sol doira» e a pessoa vive sem política e apesar dela. Certas condições, como a vontade pessoal, ajudam que isso seja possível.

E que se lixem os slogans e as frases feitas que pressionam para a participação política ou cívica, para os colectivismos e comunitarismos autoritários, como se, para se ser homem ou mulher com dimensão social e cidadã, e se realizar como ser humano e ser social, a participação política ou cívico-política, no espaço público, fosse um imperativo ou um dictato.

Cada qual deve viver como se sente realizado (Livre), mesmo que «alheado» e «distante» (Independente) do que se passa à volta. E deve defender essa condição de Ser Livre. Ninguém deve ser obrigado a habitar ou a participar em espaços politizados.

A Vida é breve (tempus fugit) e é preciso ler os livros, ouvir os discos e ver os filmes que são importantes ler, ouvir e ver. É preciso comunicar com os amigos. E tudo isto com tranquilidade e o menor ruído externo. É isso que nos salva de uma vida estupidificante. Como alguém disse, a Cultura é a «única eternidade terrena».

No caso de Rodrigo Leão, a criação musical é o seu centro. Sem perder Tempo (Vida) com o acessório.

O alheamento pode ser uma bênção. O alheamento da política só não interessa à própria política, que procura arrebanhar num sentido ou noutro, braço de muitos interesses individualistas pouco ao (real) serviço do bem comum.

Não vejo televisão há mais de um ano. Ganhei qualidade de vida, resultado que me entusiasma para outros passos libertadores. Há coisas de que é bom sentir-se «sempre distante», como observa Rodrigo Leão.

--

*Contudo, o distanciamento político não é total por parte do músico, já que as declarações aqui patentes foram feitas a propósito do espectáculo comemorativo de um acontecimento político, os 40 anos do 25 de Abril, agora editado em disco. 

Nota: de Rodrigo Leão possuo apenas a banda sonora "Portugal, um Retrato Social", talvez pela sua música não ter uma identidade mais vincada, que se deixa ficar muito pelo gosto mainstream.

domingo, outubro 12, 2014

Amália por Júlio Resende no Centro das Artes, na Calheta

Aqui tocou Júlio Resende em 3 de Outubro de 2014, no Centro das Artes, na Calheta

Músico com formação clássica e com experiência na área do jazz e da música improvisada, Júlio Resende confere um novo olhar aos fados da Amália interpretados no álbum Amália por Júlio Resende, editado no final de 2013. Com subtileza, intensidade e emoção, nunca cedendo ao linear, ao óbvio ao fácil ou ao acessório.

Os temas são muito seus no sentido de que não há nenhuma nota escrita, como salientou ao Diário: «O facto de as notas serem improvisadas, pertencem-me, elas vêm de mim. Eu tenho uma base mais ou menos de memória para cada tema, assim como um cantor canta as canções de memória. Tudo o que pode acontecer, o modo como vou contar a história, a viagem depois da canção, é completamente improvisada. E mesmo o arranjo pode ser bastante destruído ou refeito».

Pareceu-me identificar os temas Vou dar de beber à dor, A casa da Mariquinhas e Uma casa portuguesa, logo a abrir. Depois desse tema incontornável intitulado Gaivota foi a vez de uma surpresa, o Bailinho da Madeira, que o público identifica apenas no final quando surgiram notas mais decalcadas do original. Contou que, já no Centro das Artes, lembrou-se que este tinha sido o primeiro tema que o seu pai lhe ensinara.

Seguiram-se Tudo isto é fado, Da Alma, tema do seu primeiro disco com o mesmo nome, que «tem algo a ver com fado», disse, Barco Negro e, a fechar, o magistral e brutal Medo, utilizando a voz da Amália gravada. Achei que o som das colunas não estavam ao nível da reprodução da voz da Diva. Parecia estar "encaixotada"... Um detalhe que, no entanto, não beliscou a intensidade do tema.

O músico foi então muito aplaudido pela sala cheia, de pé, e voltou para um encore, através do tema Foi Deus.

Conhecendo apenas o tema Medo, que me arrebatou de imediato, se tinha dúvidas se o fado só ao piano funcionaria, o concerto dissipou-as. Pela interpretação do músico. O fado depende muito da interpretação, da intensidade, profundidade e emoção conferidas pelo intérprete.

Como afirmou Júlio Resende, nas já referidas declarações ao Diário, o «fado tem essa relação muito próxima com o coração, com a emoção, com aquilo que nos diz muito respeito.» Mais disse que as pessoas sentem as canções, sentem o silêncio, sentem a chama e a melancolia dos temas que vêm do fado e que são fado.

Durante o concerto, referiu-se a «coisas mais intensas e viscerais» e que era «bom saber que a ilha não se deixa isolar», ao ter eventos culturais com músicos do país e estrangeiro.

(Um concerto que vale bem mais do que os quinze euros pagos pelo bilhete. No final, no foyer, havia o disco à venda, ao preço do bilhete, com a possibilidade de ser autografado logo ali pelo músico.)

--
O escritor Gonçalo M. Tavares escreveu: «Há um sítio onde dói e é daí que se começa. O importante é isto: Júlio Resende parte do essencial do fado. Amália, de qualquer modo, está sempre no centro. E é daí que canta. Neste concerto, sem voz, nesse lugar do meio, no centro, a levantar-se a partir do essencial, está o piano e, como existe caminho, avança-se. O importante em Júlio Resende e no seu piano: partindo do essencial, nunca se sai de lá. E isso é raro. Avançar, e muito, sem levantar os pés do importante.»

Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 9

Imagem publicada no Diário online em 11 de Setembro de 2014
Com o título Queda pedras quase colhe automobilista no acesso ao Jardim do Mar, o Diário online voltou a dar conta da perigosidade do referido acesso rodoviário. Na edição em papel, no dia seguinte, surge a notícia Perigo espreita no Jardim do Mar.

«“Não tenho dúvidas que é um perigo recorrente que se sucede ano após ano”, diz o presidente da Câmara Municipal da Calheta, Carlos Teles, ao DIÁRIO, reconhecendo que o troço representa uma autêntica “ameaça à população e aos automobilistas” que frequentam o trajecto, em especial no período do Inverno.»

Recorde-se:
- Dão-lhes estrada com muralha mas Paul do Mar quer túnel
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 8 (Pedras em 25.11.2010)
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 7 (acção do CDS-PP em Julho de 2010)
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 6 (capa do Diário em 11.03.2010)
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 5 (Pedras em 6 e 9 de Março 2010)
- Em 1999, abaixo-assinado reivindicara túnel (lembrar-se de Santa Bárbara apenas quando dá trovões)
- Ganha força a reivindicação de um túnel para acesso seguro ao Jardim do Mar e Paúl do Mar (posição da Câmara da Calheta)

- Derrocadas
- Segurança das pessoas deveria estar em primeiro lugar (Pedras em 10.07.2009)
- Jardim do Mar «mais seguro»?
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 4 (Pedras início Fevereiro 2010)
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 3 (Diário aborda problema em 14.02.2008)
-Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 2 (Pedras em 04.10.2009)
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 1 (Pedras em 15.12.2009)

domingo, setembro 14, 2014

Bater de frente com a realidade



«É verdade que sempre custou deixar o divertimento e a ausência de horários rígidos do Verão, para começar a levantar cedo e a preparar testes, mas agora a situação está diferente. Educados com pouca exigência por pais indulgentes, os jovens de hoje privilegiam cada vez mais a cultura do descanso e do lazer. Centrados na Internet» e na «imagem». Escreveu Daniel Sampaio (Público 14 de Setembro de 2014).

Refere ainda que a «indisciplina na sala de aula é um signo desta geração de estudantes» porque também a «vivência escolar [local de esforço e trabalho] é, para os mais novos, totalmente oposta ao seu quotidiano». Verdade.

O «mundo mudou», mas sempre mudou e sempre mudará, havendo referenciais éticos, relacionais e sociais que são de qualquer tempo do mundo civilizado (!) e não podem ser negociados, em risco de voltarmos à vida selvagem.

Os adultos (desde pais a governos - estes em função do popular e do voto) demitiram-se, parcial ou totalmente, de constituir tais referenciais civilizacionais para os mais novos, sobretudo no chamado mundo ocidental.

O mundo mudou, pois, mas por acaso o mundo do trabalho está a mudar para ganhar mais e fazer menos? Bem pelo contrário: então pense-se bem para que mundo («descanso e lazer»...) se está a preparar os mais novos... Um dia batem de frente com a realidade. Por mais que se fuja da realidade, ela um dia vem ter connosco porque é incontornável.

--
A propósito:
Endémica recusa da realidade: o que dá é não fazer nada
«Fugimos a defrontar-nos com a realidade nua e crua»

sábado, setembro 06, 2014

Liberdade emancipatória de Jennifer Lawrence

A frontalidade e liberdade emancipatórias de Jennifer Lawrence ou Scarlett Johansson são poderosas e, por isso, assustam de morte a hipocrisia puritana e o machismo. Temos mulheres!
image origin

Talvez o hacker que sacou as fotografias íntimas de celebridades, além do crime de devassa do mundo privado e da dor causada, tenha dado um contributo para a emancipação das mulheres e mudança de mentalidades (anti-puritanismos e anti-machismos).

Como argumenta o articulista Henrique Raposo na peça intitulada Jennifer Lawrence e Marilyn Monroe: as diferenças (Expresso, 5 de Setembro de 2014), a actriz «Jennifer Lawrence poderá ser um símbolo de emancipação da mulher e não um mero símbolo sexual [como Marilyn Monroe].»

E explica por que razão: «Ao enfrentar de frente o problema, ao assumir a dor causada e ao colocar uma acção legal contra o hacker e diversos sites, Jennifer Lawrence está a dizer uma coisa: não, não aceito que a minha sexualidade [intimidade no geral] seja ditada por critérios puritanos ou machistas, sou eu que decido a minha vida

Sou eu que decido a minha vida. Ponto final. Uma atitude do caraças. E foi tudo à queima-roupa: a actriz teve de reagir logo e fê-lo com um inconformismo libertador. Por isso, sou humanamente solidário com esta mulher e admiro-a hoje ainda mais pela sua garra e por ter optado por dar luta e ultrapassar o problema por cima, de cabeça erguida. Só uma pessoa senhora de si e livre o consegue. Temos mulher.

Recordo, há algum tempo, que outra grande actriz, Scarlett Johansson (ok, também muito bonita e sexy, sou sensível à beleza), conseguiu ver condenado a dez anos de cadeia alguém que devassou a sua vida privada ao colocar imagens suas na net. Em 2003, numa entrevista do The Observer, declarou-se orgulhosa da sua energia sexual: «it's great to be able to pronounce your sexuality. Not... over-annunciate it. But use it, touch on it. I'm a very sexual person, I have a sexual energy about me that I'm very proud of. Like my femininity, and I think it's nice, to have guys and girls think you're sexy. As long as it's not tacky [in bad taste].»

O erotismo e a sexualidade não têm de ser, excepto à luz de certa mentalidade, algo de menos nobre, elevado ou belo. Porque nos aproxima mais do nosso instinto primitivo? Isso não tem de ser mau desde que não se banalize/vulgarize, não transforme a pessoa num mero objecto sexual, nem prejudique ou atente contra a dignidade de ninguém.

É esta emancipação feminina de Scarlett ou Jennifer, que é uma emancipação humana no sentido geral, a que a segunda deu agora um forte contributo, que constitui um valor. Há males que trazem bens mais importantes e elevados, que suplantam danos pessoais causados por actos criminosos.

E que se lixem os puritanos-falsos-moralistas-machistas que, em vez de condenar o hacker, optam por atacar a vítima, como se não tivesse direito à privacidade e a fotografar o seu corpo na intimidade. Como se a actriz estivesse a ser merecidamente castigada por ter cometido um pecado. São os mesmos que apedrejam as mulheres até à morte em certas sociedades...

O articulista diz ainda: «E esta atitude [de Jennifer Lawrence] não surge por acaso. Lawrence é o símbolo de uma Hollywood crescentemente dominada por jovens mulheres, que hoje em dia são protagonistas de grandes blockbusters. Coisa impensável no tempo de Monroe. Aliás, coisa impensável há dez anos.» E será isto que preocupa os machistas.

Nota:
Mesmo quem tenha a tentação de fazer download de alguma dessas fotografias, é importante ter em mente que é algo privado não destinado à partilha pública, o que deve ser respeitado: não procurar, não guardar, não divulgar.

quinta-feira, setembro 04, 2014

Emotion variants: some notes on Knot Invariants by Helena Gough


Knot Invariants (2012) by sound artist Helena Gough is minimal, abstract, computer composed or sculpted music, which is soothing (like slow and continuous sets of waves hitting us with a calming and hypnotic effect), contemplative and emotional (soulful).

There's tension (as in the beginning of "Double Bowline"), darkness and melancholy too. Sometimes it is even unsettling: at some point "Ossel Hitch" sounds like a beast rumbling around. But the whole album is very subtle and poignant. Even mysterious. Nothing sounds forced, superfluous or misplaced.

It is also musical: expressive, warm, organic and fluid - flows and breathes in a natural way. Besides the bass sounds (I love the ultra bass in "Double Bowline") and composition itself, the real sounds from the violoncellos ("source material derived solely from recordings of cellists Anthea Caddy and Anton Lukoszevieze") may help giving the music that organic and warm feel, no matter if those sounds are more or less explored, processed and abstracted through technology. Helena gives the cello sounds new sounds and dimensions, by changing them and placing them in new contexts.

You have simplicity and minimal along with rich textures and detail. Contemplation along with intensity and drama. Abstract along with a narrative: there is an album wholeness, but each track standing on its own and having its distinctive elements.

That is what I felt and understood in an intuitive way as a listener. To be able to say or describe more I needed to master the vocabulary and listen more often to electronic music. However, even if you are not an experimental electronic music experienced listener, one soon realises that Knot Invariants, Helena's third album, is high level material. Top level. Like when you first experience a good Cognac and knew nothing about it...

It was suggested to listen to the album at night and in silence. And that is the right atmosphere to reach its subtleties. I find the music very subtle and meditative as well. The more you listen, the more you go deeper.

My experience as a listener tells me that technically high trained musicians tend to rely more on the technique and make their compositions less musical and express themselves with less emotion. I found myself wondering if Helena Gough, a classically trained violinist, has chosen the digital media as the means (of composition) to actually create music and express herself as an artist with more freedom and in a more intuitive and spontaneous way. Then I found this quote by Helena: "You work directly with sound like a potter with clay". We listeners thank for her molding and sculpting.

I also like this quote: "Sometimes I hope to offer a moment in which someone might sense that things do not have to be as they are", Helena Gough stated in 2007. A very existentialist and nonconformist thought. The "moment" in art (or "the decisive moment" as Henri Cartier-Bresson put it) can inspire, empower and be cathartic.

It means that we can transcend ourselves and reality. That we can express ourselves in the maximum power of life, and leave our mark in the world instead of just following the flock (crowd) or being frozen by fear. That authenticity can be pursuit - pursue the individual one wants to become or the art one wants to create. That "man is freedom" (Jean-Paul Sartre), and we can be what we are. That normality, status quo and conventions can be challenged. That we can choose with passion and in a meaningful way. That one can be true to his/her own sense of creativity. That we can make the most of our life - living life to its absolute fullest.

Some, like the philosopher Hannah Arendt, argue that freedom is experienced more authentically when it is shared. Or art, or creativity, knowledge or happiness, or any other deep expression of ourselves. Being part of something larger seems to empower the individual.

The Portuguese poet Fernando Pessoa wrote in his Livro do Desassossego (Book of Disquiet - translated by Richard Zenith; numbered section 260): "Art consists in making others feel what we feel, in freeing them from themselves by offering them our own personality for special deliverance" (A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação). "I definitely want there to be emotion", said Helena Gough. Isn't emotion that makes the real difference in art? Isn't emotion that makes art liberating? Liberating as it has a cathartic effect: purging the individual of negative emotions (freeing from ourselves).

She asked back in 2009: "how to deal with saturation?" Intense (deep and even obsessive) expression of one's creativity may induce saturation, and that is an opportunity to think about new pathways. The act of creation has to make the artist feel empowered and exhale passion and freedom.

Music fans always want to get their "drug" and be "freed" (from themselves...). Even if the artist has to bleed... So, the artist should only create when and how he/she feels like doing it, and for his/her own satisfaction above all, before sharing with others for the benefit of all: creator+listeners.

terça-feira, setembro 02, 2014

«Até ao osso»: Mão Morta na Madeira 30 anos depois

MÃO MORTA na Madeira (Estalagem Ponta do Sol) em 27 de Agosto de 2014 (álbum fotográfico aqui: inclui imagem com alinhamento do concerto - o 19.º tema, do segundo encore, foi "Véus Caídos")

Foi o terceiro concerto de Mão Morta a que assisti. Tive dúvidas como seria uma banda de rock com seis elementos a tocar num espaço pequeno, no exterior de um hotel, mas foi fenomenal. Foi «até ao osso».

Mais intimista, muito à queima-roupa, emotivo e, talvez por tudo isso, de uma intensidade particular. Houve entrega da banda e o público, ávido, correspondeu. Foi uma bela comunhão. O Adolfo, sempre endiabrado, tornou brutal a comunicação. As palavras são a doer e são encarnadas pelo bardo (sem alaúde...). Só os grandes artistas conferem tal densidade, profundidade e emoção.

No final, a banda estava satisfeita com a reacção entusiasta do público, em que havia um bom punhado de fãs de há muito. Depois de ter ido refrescar-se e mudar a camisa, o carismático vocalista ficou por ali a dar autógrafos e a tirar fotografias com o público, bem disposto. Os outros elementos também ficaram pelo palco a desmontar o aparato instrumental e depois também interagiram com os fãs.

Fiquei tão inebriado que, como fui para a cama logo que cheguei a casa, acordei "febril" durante a noite, com pensamento inquieto, a latejar. Deveria ter antes relaxado um pouco até o sangue desacelerar nas veias... O concerto deixou-me empolgado. Os sons e as palavras acertaram-me, como pregos, na alma, tanto dos temas antigos como dos novos, que compõem o Pelo meu relógio são horas de matar, um título retirado de um poema de António José Forte, "Dente por dente". Muito catártico.

Se tivesse de destacar três temas do concerto? Numa escolha subjectiva, sem desmerecer nenhum outro, apontaria para "Oub'lá" (1988), "Cão da Morte" (2001) e "Hipótese de Suicídio" (2014).

Os bonecos foram feitos sem flash, daí os efeitos especiais quando o disparo apanhou movimento, mas o intuito foi ficar com um souvenir da histórica passagem dos Mão Morta pela Madeira, a primeira vez, quando esta banda de culto comemora 30 anos de carreira. A imagem em que o Adolfo está com as mãos no pescoço é durante o "Cão da Morte", um tema que muito aprecio, bem como todo esse álbum, o Primavera de Destroços: «Sinto o cão da morte a bafejar no meu pescoço»...

Mão Morta é das poucas bandas de que tenho toda a discografia. Como o valor da entrada não pagou o magnânimo concerto, vou comprar merchandise, ou então repetir algum álbum no formato vinil, como forma de agradecimento extra.

É incrível não ter havido antes um promotor na Madeira que viabilizasse a actuação dos Mão Morta, nos 30 anos de existência que conta a banda. A mensagem dos autores de Oub'lá dificilmente se coaduna com espectáculos patrocinados por certas entidades públicas culturalmente mais conservadoras... E não é assim que tem de ser? Uma banda rock é livre por natureza. Jean-Paul Sartre afirmou: «man is freedom», «we are condemned to be free». O rock cumpre esse desígnio existencial. Rock is freedom. Liberta-nos tanto do mundo como de nós mesmos (catarse de emoções negativas).

--
Nota: folha com alinhamento do concerto usada pelo Adolfo Luxúria Canibal está assinada pelo próprio. Em breve o A4 estará emoldurado, com a fita cola e tudo.
--
Mais fotografias do concerto:
Life in Stills
Joana Marote #1
Alexandre Pinto #2
Olho de Fogo