«Sozinho, um homem ganha espessura, / em grupo perde-a — e ganha apenas companheiros.» GMT

segunda-feira, Outubro 13, 2014

Quando o alheamento é uma bênção

Rodrigo Leão em entrevista à Atual, revista do semanário Expresso, de 4 de Outubro de 2014

Compreendo muito bem Rodrigo Leão, que teve uma mãe santa, que o mandou ler livros, ouvir música e ver cinema, e uma vida (meio familiar e o sucesso alcançado nos Madredeus) que lhe facilitou a independência (alheamento) face à política*.

O Ser Humano está acima da política. Os criadores podem criar sem a política e apesar dela. «O sol doira» e a pessoa vive sem política e apesar dela. Certas condições, como a vontade pessoal, ajudam que isso seja possível.

E que se lixem os slogans e as frases feitas que pressionam para a participação política ou cívica, para os colectivismos e comunitarismos autoritários, como se, para se ser homem ou mulher com dimensão social e cidadã, e se realizar como ser humano e ser social, a participação política ou cívico-política, no espaço público, fosse um imperativo ou um dictato.

Cada qual deve viver como se sente realizado (Livre), mesmo que «alheado» e «distante» (Independente) do que se passa à volta. E deve defender essa condição de Ser Livre. Ninguém deve ser obrigado a habitar ou a participar em espaços politizados.

A Vida é breve (tempus fugit) e é preciso ler os livros, ouvir os discos e ver os filmes que são importantes ler, ouvir e ver. É preciso comunicar com os amigos. E tudo isto com tranquilidade e o menor ruído externo. É isso que nos salva de uma vida estupidificante. Como alguém disse, a Cultura é a «única eternidade terrena».

No caso de Rodrigo Leão, a criação musical é o seu centro. Sem perder Tempo (Vida) com o acessório.

O alheamento pode ser uma bênção. O alheamento da política só não interessa à própria política, que procura arrebanhar num sentido ou noutro, braço de muitos interesses individualistas pouco ao (real) serviço do bem comum.

Não vejo televisão há mais de um ano. Ganhei qualidade de vida, resultado que me entusiasma para outros passos libertadores. Há coisas de que é bom sentir-se «sempre distante», como observa Rodrigo Leão.

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*Contudo, o distanciamento político não é total por parte do músico, já que as declarações aqui patentes foram feitas a propósito do espectáculo comemorativo de um acontecimento político, os 40 anos do 25 de Abril, agora editado em disco. 

Nota: de Rodrigo Leão possuo apenas a banda sonora "Portugal, um Retrato Social", talvez pela sua música não ter uma identidade mais vincada, que se deixa ficar muito pelo gosto mainstream.

domingo, Outubro 12, 2014

Amália por Júlio Resende no Centro das Artes, na Calheta

Aqui tocou Júlio Resende em 3 de Outubro de 2014, no Centro das Artes, na Calheta

Músico com formação clássica e com experiência na área do jazz e da música improvisada, Júlio Resende confere um novo olhar aos fados da Amália interpretados no álbum Amália por Júlio Resende, editado no final de 2013. Com subtileza, intensidade e emoção, nunca cedendo ao linear, ao óbvio ao fácil ou ao acessório.

Os temas são muito seus no sentido de que não há nenhuma nota escrita, como salientou ao Diário: «O facto de as notas serem improvisadas, pertencem-me, elas vêm de mim. Eu tenho uma base mais ou menos de memória para cada tema, assim como um cantor canta as canções de memória. Tudo o que pode acontecer, o modo como vou contar a história, a viagem depois da canção, é completamente improvisada. E mesmo o arranjo pode ser bastante destruído ou refeito».

Pareceu-me identificar os temas Vou dar de beber à dor, A casa da Mariquinhas e Uma casa portuguesa, logo a abrir. Depois desse tema incontornável intitulado Gaivota foi a vez de uma surpresa, o Bailinho da Madeira, que o público identifica apenas no final quando surgiram notas mais decalcadas do original. Contou que, já no Centro das Artes, lembrou-se que este tinha sido o primeiro tema que o seu pai lhe ensinara.

Seguiram-se Tudo isto é fado, Da Alma, tema do seu primeiro disco com o mesmo nome, que «tem algo a ver com fado», disse, Barco Negro e, a fechar, o magistral e brutal Medo, utilizando a voz da Amália gravada. Achei que o som das colunas não estavam ao nível da reprodução da voz da Diva. Parecia estar "encaixotada"... Um detalhe que, no entanto, não beliscou a intensidade do tema.

O músico foi então muito aplaudido pela sala cheia, de pé, e voltou para um encore, através do tema Foi Deus.

Conhecendo apenas o tema Medo, que me arrebatou de imediato, se tinha dúvidas se o fado só ao piano funcionaria, o concerto dissipou-as. Pela interpretação do músico. O fado depende muito da interpretação, da intensidade, profundidade e emoção conferidas pelo intérprete.

Como afirmou Júlio Resende, nas já referidas declarações ao Diário, o «fado tem essa relação muito próxima com o coração, com a emoção, com aquilo que nos diz muito respeito.» Mais disse que as pessoas sentem as canções, sentem o silêncio, sentem a chama e a melancolia dos temas que vêm do fado e que são fado.

Durante o concerto, referiu-se a «coisas mais intensas e viscerais» e que era «bom saber que a ilha não se deixa isolar», ao ter eventos culturais com músicos do país e estrangeiro.

(Um concerto que vale bem mais do que os quinze euros pagos pelo bilhete. No final, no foyer, havia o disco à venda, ao preço do bilhete, com a possibilidade de ser autografado logo ali pelo músico.)

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O escritor Gonçalo M. Tavares escreveu: «Há um sítio onde dói e é daí que se começa. O importante é isto: Júlio Resende parte do essencial do fado. Amália, de qualquer modo, está sempre no centro. E é daí que canta. Neste concerto, sem voz, nesse lugar do meio, no centro, a levantar-se a partir do essencial, está o piano e, como existe caminho, avança-se. O importante em Júlio Resende e no seu piano: partindo do essencial, nunca se sai de lá. E isso é raro. Avançar, e muito, sem levantar os pés do importante.»

Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 9

Imagem publicada no Diário online em 11 de Setembro de 2014
Com o título Queda pedras quase colhe automobilista no acesso ao Jardim do Mar, o Diário online voltou a dar conta da perigosidade do referido acesso rodoviário. Na edição em papel, no dia seguinte, surge a notícia Perigo espreita no Jardim do Mar.

«“Não tenho dúvidas que é um perigo recorrente que se sucede ano após ano”, diz o presidente da Câmara Municipal da Calheta, Carlos Teles, ao DIÁRIO, reconhecendo que o troço representa uma autêntica “ameaça à população e aos automobilistas” que frequentam o trajecto, em especial no período do Inverno.»

Recorde-se:
- Dão-lhes estrada com muralha mas Paul do Mar quer túnel
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 8 (Pedras em 25.11.2010)
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 7 (acção do CDS-PP em Julho de 2010)
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 6 (capa do Diário em 11.03.2010)
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 5 (Pedras em 6 e 9 de Março 2010)
- Em 1999, abaixo-assinado reivindicara túnel (lembrar-se de Santa Bárbara apenas quando dá trovões)
- Ganha força a reivindicação de um túnel para acesso seguro ao Jardim do Mar e Paúl do Mar (posição da Câmara da Calheta)

- Derrocadas
- Segurança das pessoas deveria estar em primeiro lugar (Pedras em 10.07.2009)
- Jardim do Mar «mais seguro»?
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 4 (Pedras início Fevereiro 2010)
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 3 (Diário aborda problema em 14.02.2008)
-Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 2 (Pedras em 04.10.2009)
- Derrocadas frequentes no acesso ao Jardim do Mar e Paúl do Mar 1 (Pedras em 15.12.2009)

domingo, Setembro 14, 2014

Bater de frente com a realidade



«É verdade que sempre custou deixar o divertimento e a ausência de horários rígidos do Verão, para começar a levantar cedo e a preparar testes, mas agora a situação está diferente. Educados com pouca exigência por pais indulgentes, os jovens de hoje privilegiam cada vez mais a cultura do descanso e do lazer. Centrados na Internet» e na «imagem». Escreveu Daniel Sampaio (Público 14 de Setembro de 2014).

Refere ainda que a «indisciplina na sala de aula é um signo desta geração de estudantes» porque também a «vivência escolar [local de esforço e trabalho] é, para os mais novos, totalmente oposta ao seu quotidiano». Verdade.

O «mundo mudou», mas sempre mudou e sempre mudará, havendo referenciais éticos, relacionais e sociais que são de qualquer tempo do mundo civilizado (!) e não podem ser negociados, em risco de voltarmos à vida selvagem.

Os adultos (desde pais a governos - estes em função do popular e do voto) demitiram-se, parcial ou totalmente, de constituir tais referenciais civilizacionais para os mais novos, sobretudo no chamado mundo ocidental.

O mundo mudou, pois, mas por acaso o mundo do trabalho está a mudar para ganhar mais e fazer menos? Bem pelo contrário: então pense-se bem para que mundo («descanso e lazer»...) se está a preparar os mais novos... Um dia batem de frente com a realidade. Por mais que se fuja da realidade, ela um dia vem ter connosco porque é incontornável.

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A propósito:
Endémica recusa da realidade: o que dá é não fazer nada
«Fugimos a defrontar-nos com a realidade nua e crua»

sábado, Setembro 06, 2014

Liberdade emancipatória de Jennifer Lawrence

A frontalidade e liberdade emancipatórias de Jennifer Lawrence ou Scarlett Johansson são poderosas e, por isso, assustam de morte a hipocrisia puritana e o machismo. Temos mulheres!
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Talvez o hacker que sacou as fotografias íntimas de celebridades, além do crime de devassa do mundo privado e da dor causada, tenha dado um contributo para a emancipação das mulheres e mudança de mentalidades (anti-puritanismos e anti-machismos).

Como argumenta o articulista Henrique Raposo na peça intitulada Jennifer Lawrence e Marilyn Monroe: as diferenças (Expresso, 5 de Setembro de 2014), a actriz «Jennifer Lawrence poderá ser um símbolo de emancipação da mulher e não um mero símbolo sexual [como Marilyn Monroe].»

E explica por que razão: «Ao enfrentar de frente o problema, ao assumir a dor causada e ao colocar uma acção legal contra o hacker e diversos sites, Jennifer Lawrence está a dizer uma coisa: não, não aceito que a minha sexualidade [intimidade no geral] seja ditada por critérios puritanos ou machistas, sou eu que decido a minha vida

Sou eu que decido a minha vida. Ponto final. Uma atitude do caraças. E foi tudo à queima-roupa: a actriz teve de reagir logo e fê-lo com um inconformismo libertador. Por isso, sou humanamente solidário com esta mulher e admiro-a hoje ainda mais pela sua garra e por ter optado por dar luta e ultrapassar o problema por cima, de cabeça erguida. Só uma pessoa senhora de si e livre o consegue. Temos mulher.

Recordo, há algum tempo, que outra grande actriz, Scarlett Johansson (ok, também muito bonita e sexy, sou sensível à beleza), conseguiu ver condenado a dez anos de cadeia alguém que devassou a sua vida privada ao colocar imagens suas na net. Em 2003, numa entrevista do The Observer, declarou-se orgulhosa da sua energia sexual: «it's great to be able to pronounce your sexuality. Not... over-annunciate it. But use it, touch on it. I'm a very sexual person, I have a sexual energy about me that I'm very proud of. Like my femininity, and I think it's nice, to have guys and girls think you're sexy. As long as it's not tacky [in bad taste].»

O erotismo e a sexualidade não têm de ser, excepto à luz de certa mentalidade, algo de menos nobre, elevado ou belo. Porque nos aproxima mais do nosso instinto primitivo? Isso não tem de ser mau desde que não se banalize/vulgarize, não transforme a pessoa num mero objecto sexual, nem prejudique ou atente contra a dignidade de ninguém.

É esta emancipação feminina de Scarlett ou Jennifer, que é uma emancipação humana no sentido geral, a que a segunda deu agora um forte contributo, que constitui um valor. Há males que trazem bens mais importantes e elevados, que suplantam danos pessoais causados por actos criminosos.

E que se lixem os puritanos-falsos-moralistas-machistas que, em vez de condenar o hacker, optam por atacar a vítima, como se não tivesse direito à privacidade e a fotografar o seu corpo na intimidade. Como se a actriz estivesse a ser merecidamente castigada por ter cometido um pecado. São os mesmos que apedrejam as mulheres até à morte em certas sociedades...

O articulista diz ainda: «E esta atitude [de Jennifer Lawrence] não surge por acaso. Lawrence é o símbolo de uma Hollywood crescentemente dominada por jovens mulheres, que hoje em dia são protagonistas de grandes blockbusters. Coisa impensável no tempo de Monroe. Aliás, coisa impensável há dez anos.» E será isto que preocupa os machistas.

Nota:
Mesmo quem tenha a tentação de fazer download de alguma dessas fotografias, é importante ter em mente que é algo privado não destinado à partilha pública, o que deve ser respeitado: não procurar, não guardar, não divulgar.

quinta-feira, Setembro 04, 2014

Emotion variants: some notes on Knot Invariants by Helena Gough


Knot Invariants (2012) by sound artist Helena Gough is minimal, abstract, computer composed or sculpted music, which is soothing (like slow and continuous sets of waves hitting us with a calming and hypnotic effect), contemplative and emotional (soulful).

There's tension (as in the beginning of "Double Bowline"), darkness and melancholy too. Sometimes it is even unsettling: at some point "Ossel Hitch" sounds like a beast rumbling around. But the whole album is very subtle and poignant. Even mysterious. Nothing sounds forced, superfluous or misplaced.

It is also musical: expressive, warm, organic and fluid - flows and breathes in a natural way. Besides the bass sounds (I love the ultra bass in "Double Bowline") and composition itself, the real sounds from the violoncellos ("source material derived solely from recordings of cellists Anthea Caddy and Anton Lukoszevieze") may help giving the music that organic and warm feel, no matter if those sounds are more or less explored, processed and abstracted through technology. Helena gives the cello sounds new sounds and dimensions, by changing them and placing them in new contexts.

You have simplicity and minimal along with rich textures and detail. Contemplation along with intensity and drama. Abstract along with a narrative: there is an album wholeness, but each track standing on its own and having its distinctive elements.

That is what I felt and understood in an intuitive way as a listener. To be able to say or describe more I needed to master the vocabulary and listen more often to electronic music. However, even if you are not an experimental electronic music experienced listener, one soon realises that Knot Invariants, Helena's third album, is high level material. Top level. Like when you first experience a good Cognac and knew nothing about it...

It was suggested to listen to the album at night and in silence. And that is the right atmosphere to reach its subtleties. I find the music very subtle and meditative as well. The more you listen, the more you go deeper.

My experience as a listener tells me that technically high trained musicians tend to rely more on the technique and make their compositions less musical and express themselves with less emotion. I found myself wondering if Helena Gough, a classically trained violinist, has chosen the digital media as the means (of composition) to actually create music and express herself as an artist with more freedom and in a more intuitive and spontaneous way. Then I found this quote by Helena: "You work directly with sound like a potter with clay". We listeners thank for her molding and sculpting.

I also like this quote: "Sometimes I hope to offer a moment in which someone might sense that things do not have to be as they are", Helena Gough stated in 2007. A very existentialist and nonconformist thought. The "moment" in art (or "the decisive moment" as Henri Cartier-Bresson put it) can inspire, empower and be cathartic.

It means that we can transcend ourselves and reality. That we can express ourselves in the maximum power of life, and leave our mark in the world instead of just following the flock (crowd) or being frozen by fear. That authenticity can be pursuit - pursue the individual one wants to become or the art one wants to create. That "man is freedom" (Jean-Paul Sartre), and we can be what we are. That normality, status quo and conventions can be challenged. That we can choose with passion and in a meaningful way. That one can be true to his/her own sense of creativity. That we can make the most of our life - living life to its absolute fullest.

Some, like the philosopher Hannah Arendt, argue that freedom is experienced more authentically when it is shared. Or art, or creativity, knowledge or happiness, or any other deep expression of ourselves. Being part of something larger seems to empower the individual.

The Portuguese poet Fernando Pessoa wrote in his Livro do Desassossego (Book of Disquiet - translated by Richard Zenith; numbered section 260): "Art consists in making others feel what we feel, in freeing them from themselves by offering them our own personality for special deliverance" (A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação). "I definitely want there to be emotion", said Helena Gough. Isn't emotion that makes the real difference in art? Isn't emotion that makes art liberating? Liberating as it has a cathartic effect: purging the individual of negative emotions (freeing from ourselves).

She asked back in 2009: "how to deal with saturation?" Intense (deep and even obsessive) expression of one's creativity may induce saturation, and that is an opportunity to think about new pathways. The act of creation has to make the artist feel empowered and exhale passion and freedom.

Music fans always want to get their "drug" and be "freed" (from themselves...). Even if the artist has to bleed... So, the artist should only create when and how he/she feels like doing it, and for his/her own satisfaction above all, before sharing with others for the benefit of all: creator+listeners.

terça-feira, Setembro 02, 2014

«Até ao osso»: Mão Morta na Madeira 30 anos depois

MÃO MORTA na Madeira (Estalagem Ponta do Sol) em 27 de Agosto de 2014 (álbum fotográfico aqui: inclui imagem com alinhamento do concerto - o 19.º tema, do segundo encore, foi "Véus Caídos")

Foi o terceiro concerto de Mão Morta a que assisti. Tive dúvidas como seria uma banda de rock com seis elementos a tocar num espaço pequeno, no exterior de um hotel, mas foi fenomenal. Foi «até ao osso».

Mais intimista, muito à queima-roupa, emotivo e, talvez por tudo isso, de uma intensidade particular. Houve entrega da banda e o público, ávido, correspondeu. Foi uma bela comunhão. O Adolfo, sempre endiabrado, tornou brutal a comunicação. As palavras são a doer e são encarnadas pelo bardo (sem alaúde...). Só os grandes artistas conferem tal densidade, profundidade e emoção.

No final, a banda estava satisfeita com a reacção entusiasta do público, em que havia um bom punhado de fãs de há muito. Depois de ter ido refrescar-se e mudar a camisa, o carismático vocalista ficou por ali a dar autógrafos e a tirar fotografias com o público, bem disposto. Os outros elementos também ficaram pelo palco a desmontar o aparato instrumental e depois também interagiram com os fãs.

Fiquei tão inebriado que, como fui para a cama logo que cheguei a casa, acordei "febril" durante a noite, com pensamento inquieto, a latejar. Deveria ter antes relaxado um pouco até o sangue desacelerar nas veias... O concerto deixou-me empolgado. Os sons e as palavras acertaram-me, como pregos, na alma, tanto dos temas antigos como dos novos, que compõem o Pelo meu relógio são horas de matar, um título retirado de um poema de António José Forte, "Dente por dente". Muito catártico.

Se tivesse de destacar três temas do concerto? Numa escolha subjectiva, sem desmerecer nenhum outro, apontaria para "Oub'lá" (1988), "Cão da Morte" (2001) e "Hipótese de Suicídio" (2014).

Os bonecos foram feitos sem flash, daí os efeitos especiais quando o disparo apanhou movimento, mas o intuito foi ficar com um souvenir da histórica passagem dos Mão Morta pela Madeira, a primeira vez, quando esta banda de culto comemora 30 anos de carreira. A imagem em que o Adolfo está com as mãos no pescoço é durante o "Cão da Morte", um tema que muito aprecio, bem como todo esse álbum, o Primavera de Destroços: «Sinto o cão da morte a bafejar no meu pescoço»...

Mão Morta é das poucas bandas de que tenho toda a discografia. Como o valor da entrada não pagou o magnânimo concerto, vou comprar merchandise, ou então repetir algum álbum no formato vinil, como forma de agradecimento extra.

É incrível não ter havido antes um promotor na Madeira que viabilizasse a actuação dos Mão Morta, nos 30 anos de existência que conta a banda. A mensagem dos autores de Oub'lá dificilmente se coaduna com espectáculos patrocinados por certas entidades públicas culturalmente mais conservadoras... E não é assim que tem de ser? Uma banda rock é livre por natureza. Jean-Paul Sartre afirmou: «man is freedom», «we are condemned to be free». O rock cumpre esse desígnio existencial. Rock is freedom. Liberta-nos tanto do mundo como de nós mesmos (catarse de emoções negativas).

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Nota: folha com alinhamento do concerto usada pelo Adolfo Luxúria Canibal está assinada pelo próprio. Em breve o A4 estará emoldurado, com a fita cola e tudo.
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Mais fotografias do concerto:
Life in Stills
Joana Marote #1
Alexandre Pinto #2
Olho de Fogo

segunda-feira, Setembro 01, 2014

Travessia no deserto após 36 anos de drenagem

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Um domínio avassalador de um partido político e de uma liderança carismática e musculada (Virgílio Pereira disse que «persegue qualquer tipo de sombra que lhe possa surgir, mesmo que seja a do passarinho no galho da árvore à beira dele» - Revista Diário, 21.01.2006). Ocorreu desde 1978 e secou muito à volta do líder. Este dominou tal momento histórico, para azar de muitos potenciais líderes da sua geração. Por isso, haverá uma travessia no deserto após 36 nos de drenagem das oposições. Isto apesar do tónico saudável das «verdejantes» mudanças.

O poder vai, como se costuma dizer, «cair na rua», com as devidas consequências. Ninguém o conseguirá evitar. É uma transição que tem de ocorrer, mas que se espera o mais curta e dolorosa possível, para a vida dos madeirenses. Até ao momento em que se renovem os quadros que, além da competência técnica, tenham acima de tudo Visão de futuro, sentido de Estado e de Serviço Público. Que pensem mais em elevar as condições de vida dos seus concidadãos do que na satisfação do interesse próprio.

Isto a propósito de declarações de Carlos César, no Diário de 1 de Setembro de 2014, no sentido de que a oposição, neste caso referia-se ao maior partido da oposição, tem de «se habilitar e qualificar para o efeito. O povo da Madeira votará numa alternativa na qual confie.» Isto é, as pessoas não vão votar em qualquer projecto político só em nome da alternância, mas apenas se houver a tal alternativa que mereça confiança.

O referido monopólio governativo e de liderança mais o ambiente insular, que é pouco competitivo (as oportunidades são escassas, os estímulos são limitados, o espaço para as pessoas crescerem e progredirem é reduzido), afastaram e/ou comprometeram a formação de mais quadros. Se, na Madeira, já existe pouca escolha, a cristalização dos mesmos nos cargos diminuem essa escolha/surgimento de novos quadros.

Se até o actual presidente do Governo Regional se queixa da falta de quadros, daí ter mantido boa parte dos mesmos deputados e secretários regionais durante décadas, imagine-se os partidos que não detiveram qualquer poder de governação para atrair, criar e desenvolver mais quadros, caminhando de desgaste em desgaste, desde 1978. Mas, os pecados apontados à governação PSD foram mimetizados e replicados em outras esferas da sociedade.

No Diário de 30 de Outubro de 2008, lia-se que Marco Gomes, director da Escola da APEL, escola privada madeirense, que durante cinco anos foi director pedagógico do Colégio Manuel Bernardes em Lisboa, afirmava o seguinte: «Não tenho dúvidas de que os alunos madeirenses são diferentes dos de Lisboa», onde a «competição, o esforço e o tempo dedicado aos estudos era muito maior». Parece que a escola da ditadura, antes da Revolução de 25 de Abril de 1974, afinal conseguia formar bons quadros, com competência e princípios, embora sempre associados a elites sociais - era como funcionava nesses tempos. Onde andam as elites actuais, formadas no Portugal democrático?

terça-feira, Agosto 26, 2014

«O detalhe é sempre mau» (really?)

in «Palavras do Livro do Desassossego» de Bernardo Soares (Fernando Pessoa): Edições Centro Atlântico, com edição de Libório Manuel Silva

Este texto é a parte dois do post anterior intitulado «A felicidade nas pessoas inteligentes é a coisa mais rara que conheço», que será tendencial para a inteligência consciente, analítica, com uma «lente forte» sobre a Realidade e a Existência.

Quando Fernando Pessoa, ele mesmo um «espírito altamente analítico» e uma inteligência profundamente consciente e meditativa, afirma, através do heterónimo Bernardo Soares, que o «detalhe é sempre mau», dado que «os espíritos altamente analíticos vêem (quase que) só defeitos: quanto mais forte a lente, mais imperfeita se mostra a coisa observada», o que quer dizer?

Antes de mais, é uma frase com que muitas pessoas concordariam. À letra, é como se ele estivesse a dizer algo como «felizes ou bem-aventurados os pobres (humildes, simples) de espírito, porque deles é o Reino dos Céus». Isto é, o bom é não analisar e não ver o detalhe, ficar pela rama, para alguns dominarem a manipularem os simples e humildes... Quem domina não interessa, cá neste mundo terreno passageiro e inferior. O interesse é viver de forma simples para ganhar o outro mundo, o Céu. Esse sim, tem valor (mas nem os crentes, em circunstâncias normais, querem deixar este mundo quando chega a sua hora... e por alguma razão choramos quando um ente querido parte, apesar de ir para o Céu). E assim é mais fácil a aceitação da ordem natural e não-natural das coisas.

Discordo de Fernando Pessoa quanto ao «detalhe» e ao «espírito altamente analítico» ser «sempre mau», porque até o detalhe pode fazer toda a diferença entre talento e o não-talento ou entre a vida e a morte (basta pensar, por exemplo, no trabalho de um cirurgião). Nessa ordem de ideias a inteligência também seria má. Nem Pessoa acreditava nisso. Bem pelo contrário. É um desabafo no sentido de, em certas alturas, desejar não ver tanto detalhe (ter tanta consciência das coisas) que o inquietava. Detalhe como prisão e não como uma forma de liberdade e elevação. Não há bela sem senão. Não há nada perfeito e exacto.

Em certo sentido, seria mais fácil, emocionalmente, não pensar, ver tanto ou ser livre. Recupero o «Feliz o homem marçano» que «tem a sua vida usual, / Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio, / Que dorme sono, / Que come comida, / Que bebe bebida, e por isso tem alegria.» Nada de metafísicas... basta as formas de amparo, consolo, escape e alienação (permitidas) face à realidade existencial, esta que termina sempre na morte.

Quem analisa (está só com os seus pensamentos e lucubrações), faz perguntas (a minha vida não pode ser diferente?) e tem ideias perturbadoras, malucas e perigosas, convém ser integrado num colectivo para que, juntos, todos pensem os pensamentos que todos pensam. Pensamentos normais. Os de sempre. O mesmo. «Sobre o que conversam os cavalos domésticos nas colónias de férias? Eles conversam sobre cabrestos, arreios, carroças, cavaleiros, carroceiros... E, assim, os cavalos selvagens continuam enterrados...», diz Rubem Alves no livro Se eu pudesse viver a minha vida novamente... (Edições ASA, 2005).

A igreja instituição, e aqui não se critica a necessidade da espiritualidade por parte do Homem, que é algo pessoal e íntimo, diz que o humilde e simples será preferido ao sábio que acredita mais em sim mesmo do que em Deus. Consubstancia uma desvalorização do muito saber e da própria vida neste mundo material (uma ilusão) face à transcendência, onde reside o sentido da vida, onde a vida é eterna e não termina na morte. Porque a humildade é uma atitude de submissão (a Deus). A submissão ao dictato divino (e à comunidade/autoridade religiosa) é a chave, para permitir os reinos e os reinados.

E então diz-se que a felicidade do homem se faz com a humildade de espírito e a riqueza das qualidades morais, que o fazem um cordeirinho... Esses humildes têm as riquezas morais e os outros deitam mão às riquezas terrenas, materiais. Uns aproveitam a vida, o momento presente neste mundo, fazem um festim e vivem em pleno, enquanto os outros carregam a cruz para ganhar o outro mundo que há-de vir, o verdadeiro.

Assim, quando se defende que o «detalhe» é mau (um demónio), e que deve ser evitado, pretende-se a malta anestesiada, submissa, controlada. Quem tem olho (vê o detalhe), numa terra de cegos (quem não vê defeitos), é rei. Oliveira Salazar não diria melhor. Não vale a pena saber muito... ou ler certos livros... ou entregar-se a análises que ponham em causa a ordem das coisas... Só faz mal às emoções e atrapalha a felicidade.

E a história de que os espíritos analíticos vêem só defeitos é uma falácia porque vêem mais e melhor tanto os defeitos (negativo) como tudo o resto (positivo). Tudo faz parte da realidade. É claro que ver certos detalhes não dá nada jeito aos poderes (dictactos) e há formas de desmotivar (e até reduzir o autoconceito) desses espíritos dados à actividade detalhística... Para haver menos motivação para lutar contra as injustiças.

A religião organizada ou o comunismo, para dar dois exemplos de certa forma em extremos opostos, têm em comum o preterir desses «espíritos analíticos» individuais, que pensam por si próprios, que são independentes (os tais solitários), e enaltecem o colectivo, o colegial, o comunitário. Nada de solidão contemplativa onde florescem os pensamentos (perigosos). A ociosidade não é declarada como a mãe de todos os vícios? Mais uma vez a questão central da submissão a um dictato (colectivo, neste caso, mas que tem sempre uma cabeça, uma liderança, uma individualidade ou elite), mas como observou Nietzsche, «nos indivíduos, a loucura é algo raro - mas nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra.»

E não se pense que o «detalhista» solitário, isto é, o rebelde, fica impune. Ele não pode vencer, até porque está em desvantagem face ao corpo colectivo - não há exércitos de um homem só. Há custos existenciais para quem resiste e teima em contrariar o impulso/pressão herdado para o conformismo e a natureza social inerente e instintiva no ser humano. Pode fazê-lo sentir rejeição, raiva, ressentimento, amargura, desdém, revolta e, até, misantropia. «Todo o revolucionário é associal, se o impulso for nele um desvio da vida instintiva, e não uma atitude de homem capaz de obedecer e mandar a si próprio», referiu Agustina Bessa-Luís, a respeito da construção da personalidade criadora, in Alegria do Mundo.

A resistência aos conformismos colectivos pode tornar o rebelde em algo ainda mais desprezível do que tenta não ser, porque ele não se revolta apenas face a uma dada sociedade, mas contra algo essencial no ser humano: a sua natureza ou instinto social. Daí a rejeição (o desprezo pelos companheiros) ser um castigo duro.

Mas, também há benefícios, como a autenticidade (verdade) e máxima expressão do eu no mundo. «Sozinho, um homem ganha espessura, em grupo, perde-a — ganha apenas companheiros», lê-se Gonçalo M. Tavares em Uma Viagem à Índia (p. 268, Canto VI - 56, Editorial Caminho 2010, 1.ª edição). A autenticidade e a «espessura» traz paz interior e liberdade. Não será a liberdade algo que faz parte da essência do ser humano? Ser humano é ser livre? Jean-Paul Sartre afirmou: «man is freedom»; «we are condemned to be free». Portanto, a existência é feita de solidão (individualidade) e de socialização (colectivo): cada qual equilibra ou não da forma que se sente autêntico e feliz. O que deve merecer o respeito alheio. O tempo de solidão é encarado como incómodo, infelicidade ou uma atitude anti-social.

Retomando o «detalhe», podemos dar até o benefício da dúvida a Pessoa e pensar que ele está mais preocupado no bem-estar pessoal (e social) dos espíritos analíticos, que se podem cansar, perturbar e inquietar com o muito que vêem, mas não gosto da ideia... Se for o próprio indivíduo a decidir que não quer analisar e ver o detalhe é uma coisa, se forem terceiros a impor se deve ver ou não o detalhe, será algo totalmente inaceitável.

Na verdade, são formas de dominar as massas, pois como defendia o já citado Nietzsche, nada mais terrível do que a supremacia das massas... Ele defendia ainda o tal super-homem (individual), com capacidades acima dos outros, a quem caberia o dever de elevar-se além dos limites estabelecidos pela normalidade. Homem como um deus. Uma blasfémia.

A fragilidade e vulnerabilidade da vida (a omnipotência humana acaba, um dia, por tombar perante a inexorável passagem do tempo, a doença, a crepitude, o sofrimento e a morte) são uma fatalidade e a condição, e ainda a chantagem, implacáveis, para acomodar e conformar o Homem toda uma vida. Tudo acaba, inclusive a tal omnipotência humana, que é aparente e efémera. Mas pode ser aproveitada enquanto dura, porque, no fim, tanto caem (sofrem e morrem) os omnipotentes como os humildes e servis... Porquê viver com medo, acanhado, subserviente, se o sofrimento e o fim são certos, um dia? Com respeito e ciente da nossa pequenez perante o Universo e a Existência, mas sem medo, sem se anular e vivendo/expressando-se na máxima potência da vida.

Apesar de tudo, o detalhe é uma bênção: mesmo que algum desassossego do eu não seja evitado, o detalhe faz a diferença desde que não perturbe a musicalidade (harmonia) necessária ao indivíduo. Só tenho pena de não ver ainda mais detalhe, mesmo que este seja passível de perturbar a felicidade do indivíduo «analítico», quando não consegue evitar a inquietação, os detalhes menores ou acessórios e assegurar a referida musicalidade vivencial.

Triste mesmo é a cegueira (ilusão e aceitação irreflectida), mesmo que o indivíduo seja alegre, tenha maior conforto psíquico e social, e o caminho seja mais fácil e tranquilo, numa vida mecanizada (casa - trabalho - casa - cemitério), ditada por outros e sem espaço para questionamento. É tipo, se soubesses o que custa ver o detalhe, nunca o quererias ver...

Por algum motivo a opção de tirar «jovens sem ocupação de tempos livres, esfregando os rabos pelas esquinas da baixa citadina, fumando “passa” e cultivando angústias existenciais (tão “progressista”!...)», neste caso por via da actividade desportiva. E poderia passar por outras culturas, que não só a desportiva, até porque se pode argumentar que «a única eternidade terrena é a cultura», que também confere sentido, amparo e alegria à vida). Mas certa cultura e certo saber são mais perigosos...

Desde que não saia de controlo, qualquer governo terreno promove ou condescende com os muitos e variados ópios do povo (escapes), uma forma de a malta deitar as energias cá para fora e fazer a catarse de frustrações e angústias várias, nomeadamente as que são derivadas da dominação e restrição de liberdades individuais (mesmo as bem intencionadas). Ou tão somente libertar a energia central no ser humano, a líbido, que impulsiona a vida, como documentou Freud. E assim se evitam frustrações, questionamentos e a proliferação de rebeldes.

Por outro lado, apesar de o dizerem, nem toda a gente quer liberdade nem detalhe. Citando de novo Rubem Alves, a «liberdade [ou o detalhe] traz muita confusão à cabeça. Melhores são as rotinas que nos livram da maçada de ter que tomar decisões sobre o que fazer com a liberdade [e o detalhe]. Quem tem rotinas não precisa de tomar decisões. A vida já está decidida. O cavaleiro nem precisa de puxar a rédea: o cavalo sabe o caminho a seguir.» Há cavalos que até sentem «saudades do arreio e da carroça, querem voltar, porque se cansam da liberdade [do detalhe].»

[Texto afinado em alguns detalhes :-) em 28.8.2014]
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A propósito:
«A felicidade nas pessoas inteligentes é a coisa mais rara que conheço»

domingo, Agosto 24, 2014

«A felicidade nas pessoas inteligentes é a coisa mais rara que conheço»

image credits

«— A Nina era feliz? - perguntou Catherine.
— Espero que seja feliz - respondeu a rapariga [Marita]. - A felicidade nas pessoas inteligentes é a coisa mais rara que conheço

Esta passagem («Happiness in intelligent people is the rarest thing I know») integra o início do capítulo onze do segundo livro póstumo de Ernest Hemingway, The Garden of Eden / O Jardim do Éden, publicado em 1986, vinte e cinco anos após a sua morte.

Álvaro de Campos disse-o em verso: «Estou cansado da inteligência. / Pensar faz mal às emoções». Ou ainda: «Pára, meu coração! / Não penses! Deixa o pensar na cabeça!» Como se razão e coração pudessem ser separados. Faz mal ao coração pensar, faz mal à cabeça sentir? O pensar consciente, realista, sensível e inconformado inquieta a alma e o coração.

Aristóteles já sabia que a inteligência fazia mal às emoções: “All men who have attained excellence in philosophy, in poetry, in art and in politics - even Socrates and Plato - had a melancholic habitus; indeed, some suffered even from melancholic disease.”

No poema Il Penseroso (O Meditativo) de John Milton, o sujeito poético invoca a deusa Melancolia, coberta com um véu negro:

But hail thou Goddess, sage and holy,
Hail divinest Melancholy
Whose Saintly visage is too bright
To hit the Sense of human sight;
And therefore to our weaker view,
O'er laid with black, staid Wisdoms hue. (lines 11–16)

Perante o absurdo da existência, os existencialistas colocavam três caminhos: voltar-lhe as costas, como acabou por fazer Hemingway em 1961, seguir um caminho de conformismo face às normas, significados e metodologias de viver já ditadas/herdadas ou, então, optar pela via do inconformismo: expressar-se de algum modo e criar significado no mundo, marcar a sua individualidade (não se resumir nem ser-se reduzido à existência da multidão/rebanho), ser senhor da sua vida, ser autêntico. Esta terceira via requere algumas ferramentas.

Não é a «inteligência», só por si, em termos de coeficiente, que faz com que a felicidade seja mais rara nos seus titulares. É a inteligência consciente do absurdo da existência e da realidade (o realismo pode causar inquietação e até pessimismo e menor grau da aceitação do estado de coisas); é a inteligência inconformada com os limites colocados por tal existência; é a inteligência dotada de elevada sensibilidade sobre a vida e o mundo; é a inteligência contemplativa e meditativa; é a inteligência com ambições existenciais de expressão, liberdade e autenticidade do eu.

Uma mente que aprofunda o diálogo interior, que elabora mais e se entrega a longas jornadas mentais, com maior acesso à realidade existencial e do eu que percepciona, terá mais dificuldades em aceitar as coisas como são, ignorar certas realidades, encolher os ombros e continuar a viver como se nada fosse.

São pessoas que, geralmente, aprofundam as questões vivenciais e que aspiram mais além ou mais acima («minha alma, se te matei / Perdoa por esta vez. / Fiz-te aspirar tão acima / Que desceste onde hoje vês, a seres um bicho-de-conta / Que te enrolaste de vez» - Bicho de Conta de Luiz de Macedo). E, com isso, pode vir a ansiedade e a angústia, obstáculos à felicidade. E, se calhar, mais criatividade e outras possibilidades de felicidade...

Na introdução d'O Turista Espiritual de Mick Brown pode ler-se: «Aquilo que Connolly chama Angst [termo alemão utilizado em filosofia para o estado recorrente de ansiedade ou angústia] é o acumular das pequenas incertezas sobre o lugar que ocupamos na ordem das coisas, a sensação enervante de que, de algum modo, a vida podia ser melhor, se ao menos, se ao menos.... o quê? É o desassossego do eu.»

No mesmo livro refere-se o seguinte: «"O segredo da felicidade", escreveu Cyril Connolly, "está em evitar a Angst. É um erro considerar que a felicidade é um estado positivo. Afastando a Angst, a condição de toda a infelicidade, ficamos preparados para receber as graças divinas que surjam no nosso caminho."»

Parece que há pessoas, as mais conscientes, meditativas e inconformadas sobre o mundo e a vida, que não se livram da Angst, do Desassossego, da Inquietação, como é ilustrado no Mestre de  Álvaro de Campos:

Na angústia sensacionista de todos os dias sentidos,
Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser,
Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos,
[...]
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.
[...]
Depois tudo é cansaço neste mundo subjectivado,
Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.

John Keats escreveu: "Do you not see how necessary a World of Pains and troubles is to school an Intelligence and make it a soul? A Place where the heart must feel and suffer in a thousand diverse ways!" (Excertos das Keats's Letters, datadas de 21 de Abril de 1810).

O que ignoramos não nos afecta, não nos faz sofrer. Daí muitas vezes o elogio da existência simples, sem lucubrações, da ilusão, da superficialidade, do conformismo. «The dumbest creatures are always the happiest...», disse a personagem George Falconer (Colin Firth) no filme A Single Man (2009). Novamente, aqui «dumb» não tem a ver exclusivamente com coeficiente de inteligência. No mesmo poema já citado de Álvaro de Campos lemos o sequinte:

Feliz o homem marçano
Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve ainda que pesada,
Que tem a sua vida usual,
Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio,
Que dorme sono,
Que come comida,
Que bebe bebida, e por isso tem alegria.

Por outras palavras, feliz é o homem que não tem inquietações existenciais, inconformismos, nem se entrega a contemplações. Todavia, será que sobreviver basta ao ser humano, que é dotado de razão e que precisa de progredir, de prosperar, de desenvolver-se, conhecer, elevar-se e alcançar objectivos ao longo da seu percurso existencial?

Viver inconsciente, iludido e aceitando tudo (circunstâncias, eventos e a si próprio), tem as suas vantagens, como a libertação da angústia e da consciência das coisas. Há quem prefira, mesmo sendo mais difícil, optar pela densidade, isto é, ser sempre um consciente inconformado e insatisfeito (activo e com os pés e cabeça na realidade), do que um inconsciente iludido e alegre (passivo e na irrealidade), embora no conforto do conformismo prático.

Todavia, nem é uma questão de escolha: é de ser quem se é, de se ser autêntico. Como pode alguém ser quem não é? N'O Jardim do Éden de Ernest Hemingway podemos ler: «When you start to live outside yourself, it's all dangerous.»

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A propósito:
«O detalhe é sempre mau» (really?)

quinta-feira, Agosto 21, 2014

Querer a destruição do outro não conduz à paz

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O drama maior é estarem no meio civis que sofrem, palestinianos em maior número, mas os povos também são vítimas dos líderes que escolhem. Israel, por seu lado, está "condenada" a ser o "reles agressor", mesmo que responda em contra-ataque e sofra baixas. Do lado israelita é como se as baixas não contassem, então se forem soldados é como se merecessem..., porque tem mais força, isto é, poder militar e económico.

Enquanto um dos lados, o Hamas (felizmente apenas uma parte dos palestinianos), querer a destruição do outro (Israel), nada feito.

Não estou de um lado, nem do outro, estou do lado daquelas atitudes e estratégias que, de qualquer um dos lados, incluindo os seus aliados no exterior, sejam passíveis de conduzir ao entendimento e à coexistência pacífica, assumindo tanto perdas como ganhos (solução sem perdas não existe). Não estou preso a teias ideológicas que me obriguem, cegamente, a estar de um lado ou do outro.

A propósito:
Opinião Miguel Esteves Cardoso (jornal Público 20.08.2014)
Compreender as origens da guerra em Gaza em 5 minutos (jornal Le Monde)
O essencial para compreender o conflito iraelo-palestiniano (Observador 13.07.2014)

domingo, Agosto 17, 2014

Estado da Amizade

«Et tu, Brute?» (E tu também, Brutus?), exclamou o imperador Júlio César ao seu amigo Marcus Brutus, no momento em que foi apunhalado e assassinado por um grupo de senadores (imagem da pintura Morte di Cesare de Vincenzo Camuccini)

O valor da Amizade também está em crise? O que têm as redes sociais, a crise económica e social ou Alberto João Jardim a ver com isso? É um tema de interesse humano, que merece análise e reflexão num tempo de relativismo dos valores e do que é essencial.

1.
Comecemos por pensar sobre a Amizade. Não com as comuns definições de dicionário, mas pelo que de mais profundo e subtil nos diz sobre a Amizade uma personagem no famoso romance As velas ardem até ao fim de Sándor Márai, entre as páginas 102 e 104 (Publicações Dom Quixote 19ª edição: 2009).

«Não há processo emocional mais triste e mais desesperado que quando uma amizade entre dois homens arrefece. Porque entre um homem e uma mulher tudo tem determinadas condições, como o regateio no mercado. Mas o sentido mais profundo da amizade entre homens é precisamente o altruísmo, o facto de não querermos o sacrifício do outro, nem ternura, não querermos nada, apenas manter o acordo duma aliança silenciosa.»

«Éramos amigos, não companheiros, compadres, ou camaradas. Éramos amigos e não há nada na vida que possa compensar uma amizade. Nem mesmo uma paixão devoradora pode oferecer tanto prazer como uma amizade silenciosa e discreta proporciona àqueles que são tocados pela sua força.»

«Porque a amizade não é um estado de espírito ideal. A amizade é uma lei humana rigorosa. Na antiguidade era a lei do mais forte, nela se baseavam os sistemas jurídicos das grandes civilizações. Para além das paixões e do egoísmo vivia essa lei, a lei da amizade, nos corações humanos.»

Explica ainda a razão de a amizade ser «mais poderosa que a paixão»: «a amizade não podia levar à desilusão, porque não queria nada do outro, podia-se matar o amigo, mas a amizade que se formou na infância entre duas pessoas, talvez nem a morte a pudesse matar: a sua recordação continua a viver na consciência das pessoas, como a recordação dum acto heróico silencioso.» Um acto heróico «como qualquer atitude humana que é desinteressada.»

2.
As redes sociais apresentam vantagens. Além de permitir exercitar a partilha, a escrita e o pensamento, é um meio de contacto, de encontro e de comunicação entre as pessoas, embora haja o risco de também «ampliar solidões», como referiu o poeta madeirense José Tolentino Mendonça (Estante - Abril de 2014). Acrescenta que é também um «lugar de muito desencontro, de muita desconfiança.»

Até que ponto se firma a Amizade na superficialidade dominante e confundindo-se virtualidade com realidade? Por alguma razão o Facebook, por exemplo, criou mecanismos para distinguir entre «amigos» e «conhecidos»: não é possível ao ser humano dar atenção a tanto amigo, mesmo virtual. «Os meus amigos reais já se queixam tanto da minha falta de tempo. [Aderir ao Facebook] seria só criar mais amigos insatisfeitos, e mais culpabilidade», referiu ainda José Tolentino Mendonça na já mencionada entrevista, que é ainda citada no parágrafo seguinte.

A Amizade exige profundidade, dedicação, perenidade, desinteresse, no sentido que vimos, e o tal «silêncio» ou recato. Ora, as redes sociais primam pela superficialidade e pela virtualidade («também é um mundo de muita ilusão e fabricação»), pela venda de uma imagem irreal trabalhada pelos próprios («onde é o mais o que as pessoas desejam ser do que aquilo que são»), pelo alarde e ruído, pelo interesse e competição em vender a tal imagem, nomeadamente na exibição de uma grande colecção de amigos, e por uma qualidade efémera: num click se faz ou desfaz uma "amizade".

Os políticos, por exemplo, motivados pela questão da popularidade e interesse eleitoral, gostam de ter muitos amigos e têm aderido muito às virtualidades das redes sociais. Veja-se que até o líder da Santa Sé, seja por via do Twitter, mais personalizado, mas também Facebook, Youtube, Flickr, tira partido desses meios face às vantagens comunicacionais, isto é, de propaganda, na venda das ideias do Vaticano ao serviço da difusão da fé cristã.

Há amigos que, movidos pelo interesse, conduzem à desilusão e ao desgosto. Mesmo amigos concretos, fora das redes sociais, podem revelar-se virtuais e aplicar umas facadas nas costas. A frase «Et tu, Brute?" remete a uma famosa história no século I A.C., em que o imperador romano Júlio César foi vítima de uma conspiração de senadores para tirá-lo do cargo. Entre os algozes estava o amigo Marcus Brutus. O assassinato consumou-se através de punhaladas.

Um simples guia para raparigas adolescentes (Violetta: a Amizade - 2014 Disney Interprises/Goody S.A.), depois de definir a amizade como um dos «sentimentos mais belos e únicos do mundo», começa por dizer as qualidades de uma verdadeira amiga: «nunca te trairá» surge logo em primeiro lugar. E explica: «podem zangar-se, não estar de acordo sobre algo, talvez perderem-se de vista por algum tempo, mas nunca, em tempo algum, uma verdadeira amiga trairia a tua confiança. Ela sabe o que é mesmo importante para ti e não fará nada que te possa magoar.» No final do livro, umas das dez regras ou mandamentos da amizade é, precisamente, esta: «uma amiga de verdade nunca trairá a tua confiança.»

Saliente-se que, no contexto da actual crise económica e social, na Região e no País, amizades verdadeiras e bem reais se têm revelado através de actos nobres. Com solidariedade e sem lugar a punhaladas nas costas, isto é, traição. E são actos discretos, que não necessitam de publicitação e alarde, precisamente devido à natureza desinteressada, altruísta e silenciosa da Amizade.

Como referiu Celeste Rodrigues, irmã de Amália, «as perdas — única coisa [que dói]. Não as amorosas [amor romântico]. Essas são a coisa natural da vida. Ninguém é de ninguém. Só há uma coisa que não morre: a amizade» (Público 7 de Setembro de 2014).

3.
É do domínio público as célebres «facadas nas costas» alegadas pelo actual presidente do Governo Regional e líder do maior partido político da Região, Alberto João Jardim. Aqui não interessa opinar sobre o político ou a política, mas tão somente observar a parte humana, que é o essencial neste post sobre o estado da Amizade.

Como afirmou o próprio protagonista, «há uma coisa que é muito sagrada, por mais humilde que seja o seu titular, que é a [A]mizade» (JM de 21 de Janeiro de 2014).

«Um dos meus me meter a faca nas costas?», referiu Alberto João Jardim em entrevista na RTP-Madeira (1 de Julho de 2014), que repetidamente tem falado no assunto, precisamente porque constitui uma desilusão e desgosto devido à deslealdade, abandono, ataque e amarfanhamento na praça pública de que se diz vítima. As «facadas nas costas» podem ferir de morte uma pessoa, porque custa muito a aceitar tal tipo de rejeição.

Na citada entrevista, disse ainda: «eu aceito também ser agredido pelo meu adversário. É a regra do jogo. Agora, um dos meus me meter a faca nas costas? Isso é extremamente doloroso. Não entra nos meus esquemas mentais. Um tipo está do meu lado e, de repente, mete uma faca nas costas. Desde 2012 tem sido uma coisa horrorosa.»

Em 17 Fevereiro de 2014, no JM, denunciava mesmo uma alegada tentativa de assassinato político: «estamos a assistir a parricídio. Tal sucede, quando gente cega pela ambição política, ou pelo oportunismo de tactear como vai salvar o futuro, ou por sobrevivência que não olha a meios, ou ainda pela falta de personalidade em querer enfileirar na moda do «politicamente correcto», cada um, de um momento para outro, trai laços, compromissos, projectos comuns, amizades de antes, só para seu egoísmo e avidez de poder.»

“O tiranete sairá jogado e espezinhado sem dó nem piedade”, previa, face aos eventos no seio do PSD-M, Avelino da Conceição, deputado do PS na ALM, citado no Diário de 23 de Janeiro de 2014. O pior momento do líder e a conjuntura desfavorável é altura para enterrar ainda mais quem já não tem a frescura física de outros tempos.

Perante o desgosto da alegada deslealdade, e vendo as coisas mal paradas, apela ao Povo Madeirense para ajuizar sobre essa traição de que é alvo. «Como se o Povo aceitasse a falta de carácter que o parricídio político revela!», escreveu no JM de 17 de Fevereiro do corrente ano. «Como se o Povo se fosse fiar em traidores e mentirosos, conspiradores quotidianos para se darem ares e pouco sabendo fazer da vida». E antes no JM de 22 de Janeiro: «É bom que a população da Madeira e do Porto Santo não caia numa triste figura de não perceber o que se anda a urdir contra si própria.»

Explica que «ser traído politicamente, levar uma faca nas costas políticas é inadmissível», referiu Alberto João Jardim no JM de 13 de Julho de 2014. «Mostra o carácter das pessoas que o fazem», acrescentou. E exemplificou, no JM de 21 de Julho de 2014: «nas últimas eleições autárquicas, vários [companheiros de partido] do campo derrotado nas eleições internas do PSD em 2012, traíram e, ressabiados, mandaram votar na Oposição - vejam o carácter!... - como ficou provado nos lógicos e legítimos processos que levaram a expulsões.»

Sobre o "cuspir no prato", escreveu-se no JM de 21 de Janeiro do corrente ano: «Indivíduos que sempre estiveram ao meu lado e secundaram todas as minhas decisões ao longo de mais de trinta e cinco anos, agora, só para satisfazerem as suas ambições ou continuarem a servir aqueles a quem se dobram, de um momento para outro passaram a me atacar em público, esquecendo dezenas de anos de solidariedade activa, esquecendo a amizade que sempre lhes dediquei, só para cativarem os apoios dos inimigos do PSD. Isto é falta de carácter!»

Na mesma edição lia-se um apelo, desta vez especificamente para os madeirenses que militam no partido: «E os Militantes sinceros do PSD, os que são autonomistas e sociais-democratas, estão a ver o que se passa, e tenho a certeza de que, na hora própria, darão a resposta adequada a tal tipo de gente».

No Diário de 1 de Março de 2014, o jornalista Miguel Silva diz que «alguns dos que fizeram toda a viagem do ‘jardinismo’ querem saltar do navio como se não fosse nada com eles, como se não estivessem comprometidos.» Escreveu ainda que, «ao ritmo que já vai a tentativa de distanciamento, ainda vamos chegar a uma fase em que a maioria que viveu politicamente à custa ou à sombra do presidente do PSD-M e do Governo, o vai renegar por completo».

Apesar de tudo, o protagonista político prometeu: «não me deixarei intimidar mesmo pelos que, aduladores de muitos anos, agora metem facas nas costas, indiferentes à injustiça»(JM de 21 de Janeiro de 2014).

4. Termino este texto sobre o estado da Amizade com uma passagem do tema Desabafo de Um Qualquer Angolano, de Nástio Mosquito, que em poucas palavras diz o que é essencial ao ser humano, como ser social: «Que se orgulhem de mim, que se lembrem de mim, que se juntem a mim - Amizade».

[Texto actualizado em 8.9.2014]

Autonomia como destino



A ilustre jornalista Raquel Gonçalves, por quem nutro simpatia, escreveu (blogue A preto e Branco na dnoticias.pt) que o madeirense «já não quer aquela conversa fiada de mais Autonomia, de Centralismo e de estudos pseudo-académicos sobre o Deve e o Haver pagos a peso de ouro a historiadores do regime.»

Encaro esta afirmação sobretudo como uma crítica à actual governação, porque penso que os madeirenses querem (e devem, natural e legitimamente, querer mais Autonomia), apesar de, por exemplo, Antero Monteiro Diniz, ex-Ministro/Representante da República para a Região Autónoma da Madeira, não dar isso como assente, no seu livro Evolução ou Continuidade: reflexões sobre o sistema autonómico da Madeira (p.114), em que coloca, entre muitas outras questões prévias, a seguinte:

«Será que a população e o eleitorado da Madeira pretendem verdadeiramente alterar o condicionalismo político, económico e social existente, ou ao contrário, mantê-lo e preservar a sua continuidade?»

Mas, diz outra coisa. Não fazer nada e apostar na continuidade é ficar-se bloqueado, porque «tem-se por seguro que o sistema actual e todos os seus órgãos políticos - Representante da República, Assembleia Legislativa da Madeira e Governo Regional - se encontra bloqueado, frustrando as expectativas dos constituintes fundadores, reclamando-se uma reformulação capaz de flexibilizar o seu funcionamento».

A Autonomia é algo transversal e estrutural, que não pertence nem deve ser a bandeira de um só partido, com vantagem para o próprio se for só ele que recolha, por exemplo, louros eleitorais de uma visão mais ambiciosa e mais ampla sofre o futuro da Autonomia. Porque há muito caminho para fazer em termos autonómicos. É um processo evolutivo.

A maturidade democrática da sociedade madeirense será um elemento importante nesse processo. Não se pode confundir quem governa no momento com as legítimas aspirações autonómicas de um povo ou o subsistente e discriminatório centralismo do Estado. A Autonomia será também o que os madeirenses fizerem dela. Nenhum Governo Regional pode cair na tentação de instrumentalizar os poderes autonómicos no sentido de favorecer ou desfavorecer qualquer sector, instituição ou cidadão, como alguns temem.

A felicidade de um povo não tem a ver apenas com a sobrevivência assegurada e o bem-estar económico e social. O ser humano, acautelada a sobrevivência, aspira a outros patamares e precisa desenvolver-se/progredir/elevar-se. Tem também a ver com o viver a sua própria vida e fazer as suas próprias escolhas.

A autonomia (1) tornou-se um valor chave nas sociedades livres. O madeirense não se deve conformar à Autonomia que já conquistou. O inconformismo é importante para o progresso. As escolhas de um povo são as melhores porque são as suas escolhas, mesmo que não sejam as melhores, passe-se a aparente contradição.

A Autonomia é imparável e seria trágico se se abrisse mão dela por actos, hesitações ou omissões. É um valor que tem de estar acima de querelas domésticas e do culto de egos. Seria a estagnação. Ela continua a ter, naturalmente, inimigos lá fora, mas todos os madeirenses querem o melhor para a sua terra e querem ser senhores do seu destino. E são responsáveis pelos líderes que escolhem para liderar e concretizar tais desígnios.

Um forte apelo da Autonomia é a luta activa e real (e possibilidade de fracasso) que ela implica, para estes portugueses no meio do Atlântico realizarem as suas conquistas (obter melhores condições de vida, escolher e comandar o seu destino). Se nos dessem autonomia sem ser nossa conquista, não seria a mesma coisa, porque precisamos de ser activos e estar no controlo das coisas, em vez de sermos subjugados e passivos.

Temos de ser nós a encontrar e a conquistar o nosso caminho. Um povo que aprendeu a sobreviver, em condições muito difíceis nestas ilhas, a transformar a paisagem natural e a dominar a orografia agreste com as suas mãos, não espera nem quer nada de mão-beijada. Não pode é conformar-se, por mais confortável que seja, no imediato, à sua fraca «intervenção pública na avaliação e julgamento do poder político, acomodando-se, ao contrário, salvo sectores minoritários, numa postura de indiferença, ou de passiva e silenciosa aceitação», para citar ainda Monteiro Diniz.

Os madeirenses não podem, por exemplo, aceitar que a dívida da Madeira, resultante de investimento público, que de algum modo beneficiou a população (não cabe aqui desenvolver o tema dos maus investimentos e erros que se conhecem, alguns comentados neste blogue), tenha um tratamento discriminatório pelo Estado Central face a outras dívidas, como a recente dívida/fraude no BES, resultante de benefícios puramente privados e do capitalismo selvagem, sem regulação ou com fraca regulação, que põe muita coisa em risco no País.

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A propósito:

(a) Evolução ou Continuidade: reflexões sobre o sistema autonómico da Madeira de Antero Monteiro Diniz, ex-Ministro/Representante da República para a Região Autónoma da Madeira, publicado em 2013. Refira-se ainda a entrevista concedida à revista Islenha de Junho de 2007, incluída no referido livro.

(b) Há quem defenda que o limite da Autonomia são os atributos da soberania, do Estado: Direitos, Liberdades e Garantias dos cidadãos, Política Externa, Defesa Nacional, Segurança Interna, Sistema Nacional de Segurança Social e Tribunais de recurso. Autonomia não é independência.

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Nota (1)

Ao folhear o livro com algumas ideias (pouco ortodoxas) do Papa Francisco (Palavras de Esperança, Terreiro do Paço Ed. 2013), deparei-me com a seguinte perspectiva sobre a autonomia: «O homem de hoje experimenta o desenraizamento e o desamparo. Leva-o afã desmedido de autonomia herdado da modernidade» (p.32).

Penso que não é só o desenraizamento e o desamparo que o preocupa. O homem livre, inconformado, autónomo e no "controlo" do seu destino, no que está ao seu alcance controlar, faz as suas escolhas, que pode passar por não escolher o «amparo» e as «raízes» (autoridade) da religião, e até da própria fé, que ajudam, como o estoicismo (obediência à natureza, ao decurso natural do universo e à razão), a aliviar e a ultrapassar o sofrimento: a manter a serenidade perante tanto as tragédias e as alegrias, isto é, a suportar as dificuldades inerentes à vida, confiando no destino (abdicar do controlo para ter mais controlo emocional). A individualidade e a autonomia não cria muitos fiéis nem enche igrejas porque aqueles valores não conduzem à passividade e ao colocar-se nas mãos de outros, como pretendem muitas formas de amparo (e quem não quer amparo?). Os poderes gostam muito de rebanhos.

segunda-feira, Agosto 04, 2014

Jornais regionais sobre a eleição da Madeira como melhor destino turístico insular

Destaque na imprensa regional do facto de a Madeira ter sido eleita como o Melhor Destino Insular da Europa, pelo segundo ano consecutivo, pelos World Travel Awards, os Óscares do turismo. A cerimónia teve lugar no passado sábado, na Grécia.

Uma boa notícia para a economia regional e um importante reconhecimento. Quando o mundo parece enlouquecer, na Madeira e Porto Santo os turistas podem encontrar paz, segurança, clima temperado, aventura e paisagens intensas.

Mais informação:

WTW: http://www.worldtravelawards.com/award-europes-leading-island-destination-2014
Diário: http://www.dnoticias.pt/sites/default/files/Prim_04-08-2014.pdf
JM: http://62.28.148.29/php/pdf/2014/08/04/flash/2014-08-04.php