«Sozinho, um homem ganha espessura, / em grupo perde-a — e ganha apenas companheiros.» GMT

domingo, Agosto 17, 2014

Estado da Amizade

«Et tu, Brute?» (E tu também, Brutus?), exclamou o imperador Júlio César ao seu amigo Marcus Brutus, no momento em que foi apunhalado e assassinado por um grupo de senadores (imagem da pintura Morte di Cesare de Vincenzo Camuccini)
O valor da Amizade também está em crise? O que têm as redes sociais, a crise económica e social ou Alberto João Jardim a ver com isso? É um tema de interesse humano, que merece análise e reflexão num tempo de relativismo dos valores e do que é essencial.

1.
Comecemos por pensar sobre a Amizade. Não com as comuns definições de dicionário, mas pelo que de mais profundo e subtil nos diz sobre a Amizade uma personagem no famoso romance As velas ardem até ao fim de Sándor Márai, entre as páginas 102 e 104 (Publicações Dom Quixote 19ª edição: 2009).

«Não há processo emocional mais triste e mais desesperado que quando uma amizade entre dois homens arrefece. Porque entre um homem e uma mulher tudo tem determinadas condições, como o regateio no mercado. Mas o sentido mais profundo da amizade entre homens é precisamente o altruísmo, o facto de não querermos o sacrifício do outro, nem ternura, não querermos nada, apenas manter o acordo duma aliança silenciosa.»

«Éramos amigos, não companheiros, compadres, ou camaradas. Éramos amigos e não há nada na vida que possa compensar uma amizade. Nem mesmo uma paixão devoradora pode oferecer tanto prazer como uma amizade silenciosa e discreta proporciona àqueles que são tocados pela sua força.»

«Porque a amizade não é um estado de espírito ideal. A amizade é uma lei humana rigorosa. Na antiguidade era a lei do mais forte, nela se baseavam os sistemas jurídicos das grandes civilizações. Para além das paixões e do egoísmo vivia essa lei, a lei da amizade, nos corações humanos.»

Explica ainda a razão de a amizade ser «mais poderosa que a paixão»: «a amizade não podia levar à desilusão, porque não queria nada do outro, podia-se matar o amigo, mas a amizade que se formou na infância entre duas pessoas, talvez nem a morte a pudesse matar: a sua recordação continua a viver na consciência das pessoas, como a recordação dum acto heróico silencioso.» Um acto heróico «como qualquer atitude humana que é desinteressada.»

2.
As redes sociais apresentam vantagens de contacto, de encontro e de comunicação entre as pessoas, mas até que ponto se firma a Amizade confundindo virtualidade com realidade? Por alguma razão o Facebook, por exemplo, criou mecanismos para distinguir entre «amigos» e «conhecidos». Não é possível ao ser humano dar atenção a tanto amigo, mesmo virtual.

A Amizade exige profundidade, dedicação, perenidade, desinteresse e o tal «silêncio» ou recato. Ora, as redes sociais primam pela superficialidade e pelo virtual, pela venda de uma imagem irreal trabalhada pelos próprios, pelo alarde e ruído, pelo interesse e competição em vender a tal imagem, nomeadamente na exibição de uma grande colecção de amigos, e por uma qualidade efémera: num click se faz ou desfaz uma "amizade".

Os políticos, por exemplo, motivados pela questão da popularidade e interesse eleitoral, gostam de ter muitos amigos e têm aderido muito às virtualidades das redes sociais. Veja-se que até o líder da Santa Sé, seja por via do Twitter, mais personalizado, mas também Facebook, Youtube, Flickr, tira partido desses meios face às vantagens comunicacionais, isto é, de propaganda (venda das ideias do Vaticano ao serviço da difusão da fé cristã).

E depois há amigos, movidos pelo interesse, que nos saem pela culatra, isto é, conduzem à desilusão e ao desgosto. Se há lugar à desilusão, é porque não havia, realmente, Amizade.

Mesmo amigos concretos, fora das redes sociais, podem revelar-se virtuais e dar facadas nas costas. A frase «Et tu, Brute?" remete a uma famosa história no século I A.C., em que o imperador romano Júlio César foi vítima de uma conspiração de senadores para tirá-lo do cargo. Entre os algozes estava o amigo Marcus Brutus. O assassinato consumou-se através de punhaladas.

3.
Saliente-se que, no contexto da actual crise económica e social, na Região e no País, amizades verdadeiras e bem reais se têm revelado através de actos nobres. Com solidariedade e sem lugar a punhaladas nas costas.

E são actos discretos, que não necessitam de publicitação e alarde, precisamente devido à natureza desinteressada, altruísta e silenciosa da Amizade.

4.
É do domínio público as célebres «facadas nas costas» alegadas pelo actual presidente do Governo Regional e líder partidário do maior partido da Região, Alberto João Jardim. Aqui não me interessa a parte política da questão, mas tão somente a parte humana, o essencial, neste post sobre o estado da Amizade.

Como afirmou o próprio protagonista, «há uma coisa que é muito sagrada, por mais humilde que seja o seu titular, que é a [A]mizade» (JM de 21 de Janeiro de 2014).

«Um dos meus me meter a faca nas costas?», referiu Alberto João Jardim em entrevista na RTP-Madeira (1 de Julho de 2014), que repetidamente tem falado no assunto, precisamente porque constitui uma desilusão e desgosto devido à deslealdade, abandono, ataque e amarfanhamento na praça pública de que se diz vítima. As «facadas nas costas» podem ferir de morte uma pessoa, porque custa muito a aceitar tal tipo de rejeição.

Na citada entrevista, disse ainda: «eu aceito também ser agredido pelo meu adversário. É a regra do jogo. Agora, um dos meus me meter a faca nas costas? Isso é extremamente doloroso. Não entra nos meus esquemas mentais. Um tipo está do meu lado e, de repente, mete uma faca nas costas. Desde 2012 tem sido uma coisa horrorosa.»

Em 17 Fevereiro de 2014, no JM, denunciava mesmo uma alegada tentativa de assassinato político: «estamos a assistir a parricídio. Tal sucede, quando gente cega pela ambição política, ou pelo oportunismo de tactear como vai salvar o futuro, ou por sobrevivência que não olha a meios, ou ainda pela falta de personalidade em querer enfileirar na moda do «politicamente correcto», cada um, de um momento para outro, trai laços, compromissos, projectos comuns, amizades de antes, só para seu egoísmo e avidez de poder.»

“O tiranete sairá jogado e espezinhado sem dó nem piedade”, previa, face aos eventos no seio do PSD-M, Avelino da Conceição, deputado do PS na ALM, citado no Diário de 23 de Janeiro de 2014. Aproveita-se o pior momento do líder e a conjuntura desfavorável para enterrar ainda mais quem já não tem a frescura física de outros tempos.

Perante o desgosto da alegada deslealdade, e vendo as coisas mal paradas, apela ao Povo Madeirense para ajuizar sobre essa traição de que é alvo. «Como se o Povo aceitasse a falta de carácter que o parricídio político revela!», escreveu no JM de 17 de Fevereiro do corrente ano. «Como se o Povo se fosse fiar em traidores e mentirosos, conspiradores quotidianos para se darem ares e pouco sabendo fazer da vida». E antes no JM de 22 de Janeiro: «É bom que a população da Madeira e do Porto Santo não caia numa triste figura de não perceber o que se anda a urdir contra si própria.»

Explica que «ser traído politicamente, levar uma faca nas costas políticas é inadmissível», referiu Alberto João Jardim no JM de 13 de Julho de 2014. «Mostra o carácter das pessoas que o fazem», acrescentou. E exemplificou, no JM de 21 de Julho de 2014: «nas últimas eleições autárquicas, vários [companheiros de partido] do campo derrotado nas eleições internas do PSD em 2012, traíram e, ressabiados, mandaram votar na Oposição - vejam o carácter!... - como ficou provado nos lógicos e legítimos processos que levaram a expulsões.»

Sobre o "cuspir no prato", escreveu-se no JM de 21 de Janeiro do corrente ano: «Indivíduos que sempre estiveram ao meu lado e secundaram todas as minhas decisões ao longo de mais de trinta e cinco anos, agora, só para satisfazerem as suas ambições ou continuarem a servir aqueles a quem se dobram, de um momento para outro passaram a me atacar em público, esquecendo dezenas de anos de solidariedade activa, esquecendo a amizade que sempre lhes dediquei, só para cativarem os apoios dos inimigos do PSD. Isto é falta de carácter!»

Na mesma edição lia-se um apelo: «E os Militantes sinceros do PSD, os que são autonomistas e sociais-democratas, estão a ver o que se passa, e tenho a certeza de que, na hora própria, darão a resposta adequada a tal tipo de gente».

No Diário de 1 de Março de 2014, o jornalista Miguel Silva diz que «alguns dos que fizeram toda a viagem do ‘jardinismo’ querem saltar do navio como se não fosse nada com eles, como se não estivessem comprometidos.» Escreveu ainda que, «ao ritmo que já vai a tentativa de distanciamento, ainda vamos chegar a uma fase em que a maioria que viveu politicamente à custa ou à sombra do presidente do PSD-M e do Governo, o vai renegar por completo».

Apesar de tudo, o protagonista político prometeu: «não me deixarei intimidar mesmo pelos que, aduladores de muitos anos, agora metem facas nas costas, indiferentes à injustiça»(JM de 21 de Janeiro de 2014).

5. Termino com uma passagem do tema Desabafo de Um Qualquer Angolano, de Nástio Mosquito, que em poucas palavras diz o que é essencial ao ser humano como ser social: «Que se orgulhem de mim, que se lembrem de mim, que se juntem a mim; Amizade».

Autonomia como destino



A ilustre jornalista Raquel Gonçalves escreveu (blogue A preto e Branco na dnoticias.pt) que o madeirense «já não quer aquela conversa fiada de mais Autonomia, de Centralismo e de estudos pseudo-académicos sobre o Deve e o Haver pagos a peso de ouro a historiadores do regime.»

Vejo mais como uma crítica à actual governação, porque penso que os madeirenses querem e devem querer mais Autonomia. Deixar esse caminho e bandeira entregues a um partido faz com que só esse recolha os louros eleitorais. Há muito caminho para fazer em termos autonómicos. É um processo evolutivo.

Os madeirenses não podem, por exemplo, aceitar que a dívida da Madeira, resultante de investimento público, que de algum modo beneficiou a população (não cabe aqui desenvolver os maus investimentos e erros que se conhecem), tenha um tratamento discriminatório pelo Estado Central face a outras dívidas, como esta recente dívida/fraude no BES, resultante de benefícios puramente privados e do capitalismo selvagem, sem regulação ou com fraca regulação.

Não se pode confundir quem governa no momento com as legítimas aspirações autonómicas de um povo ou o subsistente e discriminatório centralismo do Estado (onde anda, por exemplo, a aplicação da continuidade territorial?).

A Autonomia da RAM é imparável e seria trágico se se abrisse mão dela por actos, hesitações ou omissões. Ela continua a ter inimigos lá fora, mas todos os madeirenses querem o melhor para a sua terra e querem ser senhores do seu destino. E são responsáveis pelos líderes que escolhem para liderar e concretizar tais desígnios.

segunda-feira, Agosto 04, 2014

Jornais regionais sobre a eleição da Madeira como melhor destino turístico insular

Destaque na imprensa regional do facto de a Madeira ter sido eleita como o Melhor Destino Insular da Europa, pelo segundo ano consecutivo, pelos World Travel Awards, os Óscares do turismo. A cerimónia teve lugar no passado sábado, na Grécia.

Uma boa notícia para a economia regional e um importante reconhecimento. Quando o mundo parece enlouquecer, na Madeira e Porto Santo os turistas podem encontrar paz, segurança, clima temperado, aventura e paisagens intensas.

Mais informação:

WTW: http://www.worldtravelawards.com/award-europes-leading-island-destination-2014
Diário: http://www.dnoticias.pt/sites/default/files/Prim_04-08-2014.pdf
JM: http://62.28.148.29/php/pdf/2014/08/04/flash/2014-08-04.php

domingo, Agosto 03, 2014

«Fugimos a defrontar-nos com a realidade nua e crua»

Aos portugueses falta civilização: mais educação, civismo, organização, profissionalismo, realismo e centrar-se no essencial
(foto copyright Ricardo Castelo/jornal I)

A evidência dá conta que «fugimos a defrontar-nos com a realidade nua e crua», como verbaliza o investigador Manuel Sobrinho Simões (entrevista no jornal I de 2 de Agosto de 2014, por Isabel Tavares), transformando os portugueses em mestres nos rodeios, no acessório, no politicamente correcto, e isso torna-nos menos eficientes.

Como coloca Sobrinho Simões, a «palavra apreender, mesmo compreender, é sempre à superfície. É engraçado, porque somos miméticos, mas a linguagem, a descrição, o que embrulha, é quase mais importante do que a coisa em si, e isso tira-nos a capacidade de ser eficientes.» E acrescenta: «nós somos assim, circulares, porque nunca precisámos de mostrar eficiência.»

Daí que «adoramos retórica, discursos labirínticos, achamos que isso é que nos torna interessantes. Não percebemos a ideia de que tempo é dinheiro. Uma coisa que noto nos meus alunos, entre cá dentro e lá fora, é que lá fora sabem distinguir muito bem o essencial do acessório. Aqui ir directamente ao ponto é demonstrar fragilidade.» Diria mais, é como se estivéssemos errados, a atacar alguém, a tocar num assunto proibido, a cometer algum sacrilégio ou má educação.

A retórica e o falar bem interessam-nos mais do que a realidade. Essa distância da realidade é para esconder uma coisa: a incompetência. Não há como ser bem falante e, já agora, vestir bem para esconder a incompetência. Um país de incompetência e falcatruas, estas que são também uma fuga à realidade, no sentido de iludir e ludibriar os outros. O escândalo recente no Banco Espírito Santo é ilustrativo ao mais alto nível.

Diz-nos que o que «falta é organização e saber avaliar, uma vez mais porque somos todos primos de primos [e amigos] e não introduzimos mecanismos de recompensa-castigo.» Mais adiante reforça que «não podem ser os pares [a avaliar], numa sociedade com muito pouca tradição de avaliação e com muito pouca independência.»

Mimetizarmos os noruegueses, por exemplo, «exigiria que tivéssemos regras e que as cumpríssemos. Enquanto não foi preciso produzir riqueza, nós, como organização social, que não era boa, aguentámos» várias provações. Agora, que os tempos são outros, a grau de organização e de civilidade têm de ser outros.

A esse propósito Sobrinho Simões sabe, por trabalhar «muito com a República Checa, a Polónia e a Eslovénia, [que] eles são mais educados que nós. Se se puser um problema de competição, eles ganham. A Europa de Leste passou a ser mais um factor de pressão sobre Portugal e agora estamos a competir com a Lituânia, a Letónia, a Estónia e a Bulgária.»

Dá um exemplo dos benefícios se fossemos mais civilizados: «diminuiríamos muito os gastos do sistema de saúde se fossemos mais educados, mais bem comportados do ponto de vista social, se tivéssemos melhores hábitos. Faríamos economias pelo lado da prevenção.»

Constata que «nós somos invejosos, não somos vigilantes» de forma a incutir nos outros educação social. E ainda «como somos muito individualistas e invejosos, temos uma extrema dificuldade em nos associarmos».

Uma última nota sobre a ideia de que «deixou de ser compensador ser muito bom, muito sério e muito trabalhador. Pior: é quase estúpido. Os smart kids ingleses já não vão para Medicina, nem para Engenharia, vão para a política. Ou para a banca. Estamos a dar cabo das profissões.» 

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A propósito:
Endémica recusa da realidade: o que dá é não fazer nada

domingo, Junho 22, 2014

Endémica recusa da realidade: o que dá é não fazer nada

 Bartoon 17.6.2014

Aderir à realidade foi sempre uma dificuldade nacional. Preferimos disfarçá-la e evitá-la, porque enfrentá-la implica mudar de vida, fazer alguma coisa. E isso, além de muito trabalho para si e para os outros, cria inimigos e complicações. Essa coisa maçadora de fazer melhor, de exigir, de obrigar-se, de disciplinar-se, de responsabilizar-se... Está tudo organizado para não se fazer nada.

Não fazer nada é "mais produtivo", no sentido comezinho, porque assegura a cómoda sobrevivência e a fácil ascensão. Além de popularidade (sermos porreiros). Não fazer nada traz recompensas. O estímulo é para ficar calado, não fazer ondas, promover a paz podre e o compromisso, para tudo ficar na mesma, as águas estagnadas, enfim, o pântano. Uma herança salazarenta.

Não se percebe, pois, que a frontalidade, o confronto, mesmo de firme e duro, de ideias e propostas, produz mais e melhores resultados do que o unanimismo, o facilitismo, a mistificação, o estar bem com tudo e todos ou o silêncio. Mas quem quer melhorar, realmente, resultados? Basta mexer nas estatísticas e atingem-se os resultados sem ter que mudar nada, sem nada fazer. E há ainda essa praga anti-mudança chamada «politicamente correcto».

Tudo se faz para esconder a mediocridade, a estupidez, o ineficaz, o errado, o improdutivo.

A confirmar esta realidade, Marcelo Rebelo de Sousa disse numa recente entrevista (Revista Expresso 31.5.2014): «Guterres, uma vez, deu-me um conselho: não faça nada, porque se não fizer nada será primeiro-ministro. O meu problema foi mexer-me demais.» Quando alguém procura fazer alguma coisa de significativo as forças de bloqueio, os aparelhos minam tudo («o que fica pelo meio impecilha a decisão», refere Marcelo Rebelo de Sousa). Sá Carneiro acabou, inclusive, morto.

A consequência de tudo isto? Demorarmos ou até nunca arrepiarmos caminho. Daí sermos menos produtivos e eficazes do que outros povos, nomeadamente do norte da Europa, em que se inclui a França, com a sua latinidade.

«Só que, de quando em quando, nos cai a Alemanha [selecção de futebol] na cabeça ou uma dívida inexplicável, que levará a pagar 30 e tal anos. Como raio estas coisas nos podem suceder?», diz Vasco Pulido Valente em artigo de opinião (Público 20.6.2014) sobre a nossa endémica recusa em aderir à realidade, que nos impede de melhorar (alterar essa realidade negativa).

O que queremos é escapismo e inércia. Até ao dia em que somos atropelados pela realidade... Já Eduardo Lourenço escreveu, em 1978, no livro O Labirinto da Saudade: Psicanálise Mítica do Destino Português:

«É pena de Freud não nos tenha conhecido: teria descoberto, ao menos, no campo da pura vontade de aparecer, um povo em que se exemplifica o sublime triunfo do princípio do prazer sobre o princípio da realidade

Mais palavras, para quê?

Se quer ser um/a gajo/a porreiro/a, sobreviver e ascender em terras lusas... não olhe a realidade, cultive o politicamente correcto e, sobretudo, não mude nada, não faça nada.

terça-feira, Abril 01, 2014

Steve McQueen's 12 Years A Slave

Steve McQueen, realizador de 12 Anos Escravo
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Filme denso, brutal e perturbante, que mostra a que ponto o ser humano pode ser cruel e infligir sofrimento atroz a outros seres humanos. A forma como está realizado por Steve McQueen faz a diferença: envolve e causa forte impacto no espectador.

Não há paninhos quentes. Há emoções fortes. Sentimos e "vivemos", numa atmosfera opressiva e de enorme violência psicológica/emocional, o desespero de quem se vê à mercê da tirania, da irracionalidade e da selvajaria sem perdão.

Recorde-se que acabou por ser premiado como melhor filme no Óscar 2014. Ganhou ainda os prémios Roteiro Adaptado, Melhor Actriz Secundária e “Melhor Filme”.

O prémio de Melhor Filme é também o primeiro Óscar de Brad Pitt, que é produtor de 12 Anos Escravo. Realizada por Steve McQueen, a obra é baseada nas memórias de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), negro livre do Norte dos Estados Unidos que é sequestrado e vendido como escravo.
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Entrevista
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segunda-feira, Março 31, 2014

Martin Scorsese's The Wolf of Wall Street

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The Wolf of Wall Street é brutal, ousado, vertiginoso, sem panos quentes (cru), qualidade que aprecio num filme. Baseado em eventos reais, há dinheiro, sexo e drogas em quantidades industriais. A natureza humana no seu esplendor, potenciada pelos meios materiais e pelo poder.

Ao mesmo tempo que se simpatiza com a força, a resistência, as origens humildes e a ambição do protagonista (não se consegue antipatizar com Jordan Belfort interpretado por Leonardo DiCaprio) é chocante ver que não olha a meios para atingir os seus fins.

É elucidativo quanto à forma selvagem (prepadora) como funciona certo sistema financeiro, para enriquecimento de alguns, à custa de muitos - não se pode deixar de pensar na actual crise, que estamos a pagar, por causa da ganância (e concentração de riqueza) em termos absurdos e grotescos (regulação e legalidade precisam-se). Interessa acima de tudo vender bem, mesmo que seja lixo (produtos tóxicos), simplesmente enganando/roubando os outros com a maior das alegrias e naturalidade.

Grande filme realizado pelo mestre Martin Scorsese, sendo também produtor em parceria com Leonardo DiCaprio. Três horas que passam num instante. Saí da sala convencido que tinham passado apenas cerca de duas horas... pensei que o relógio do carro estava na hora antiga. Sai-se também da sala com muito para reflectir sobre o materialismo extremo (ter) e a valorização da imagem/personalidade/fama (acima do carácter ou do ser) porque o que importa é vender (parecer).

Hoje, vende-se, compra-se, vota-se e até se ama pela imagem, paleio e primeira impressão...

NOTA:
não estou aqui a fazer leituras inquinadas ideologicamente, nem a condenar o mercado (justo) nem o consumo (moderado), quando são positivos e benéficos para as pessoas, individualmente, e a sociedade em geral. Nem tão pouco a querer mal ao dinheiro, porque ele dá jeito e conforto, não sejamos hipócritas. E muito menos com falsos moralismos quanto às outras duas realidades salientes no filme, sexo e drogas, que são da conta de cada um. E viva a liberdade e as oportunidades para cada pessoa alcançar os seus sonhos e, no reverso da moeda, assumir as suas responsabilidades.

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domingo, Março 30, 2014

Liberdade de escolha do vício

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Não fumo, mas concordo que cada qual tenha direito a escolher como viver (com prazer) e como chegar/enfrentar o fim.

Apenas peço que se respeite a liberdade de quem tenha escolhido outro vício e não quer fumar passivamente, sem a liberdade e o prazer gozados pelo fumador, liberdade e prazer a que tem, repita-se, direito ;)

sábado, Março 29, 2014

«Falar de coisas concretas não adianta nada»

«É fundamental o tempo não produtivo, o tempo da cultura», defende o escritor Gonçalo M. Tavares

Ainda no âmbito da edição do Festival Literário da Madeira 2014, Gonçalo M. Tavares terminou a sua conversa, a respeito do seu livro Atlas do corpo e da imaginação, dizendo que é preciso «perceber as essências nestes tempos mais violentos, economicamente».

E, por vezes, o «essencial está na periferia», referindo que o «imaginário tem a ver com o desviar do olhar para o que está à volta e além do que é mais óbvio e dominante», seja numa imagem ou num texto. Significa «ver outra coisa que não nos é mostrado» ou transmitido.

Para o escritor, «ler é mais ver imagens à volta da frase do que ler a própria frase.» Por isso, o «bom leitor é aquele que não fica só na frase que lê». Bem como uma «imagem também tem outras imagens à volta.»

Ao longo da conversa, Gonçalo M. Tavares foi comentando uma série de imagens que integram o Atlas do corpo e da imaginação, tendo sublinhado que se «deve parar nas imagens», saber «pensá-las e digeri-las». E «não dizer sempre formidable às imagens que passam à nossa frente».

No seu entender, «falar de coisas concretas não adianta nada», querendo dizer que os «artistas devem ter entrada na actualidade de um forma diferente, para acrescentar algo», de modo a não entrar em cima do imediato.

Define como «fundamental o tempo que não é produtivo, o tempo da cultura», apesar de ler ser um «luxo existencial», que não existe para quem as necessidades básicas, de sobrevivência, satisfeitas (embora mesmo em tempos de prosperidade, o consumo de cultura no País não tenha sido, proporcionalmente, muito diferente). Sustenta que a «pobreza não tem tempo» e «não pode esperar». Exemplificou com o assalto ou «transferência massiva de macieiras» desde 2008, em que as pessoas, para acudir situações urgentes, não vendem apenas as maçãs, mas também as próprias macieiras, que lhes asseguraria o futuro.

Ora, «ler não dá algo de imediato», acrescentando que «cultura é o contrário de informação», isto é, «cultura são informações digeridas ao longo do tempo». Em tempos de crise «desvaloriza-se certas actividades que não dão fruto de imediato». Por isso, «ler é associado a uma actividade inútil».

Falou da importância do «decidir sobre o que pensar», para não se deixar levar no ruído da actualidade, que muitas vezes não traduz a realidade, mas que ocupa as conversas e o pensamento das pessoas, com a tendência a uniformizar tanto as conversas como o pensamento. Com toda a gente a falar e a pensar os mesmos temas e assuntos.

Por fim, uma nota sobre a importância das «referências», que são um ponto fixo, que são feitas para períodos de crise, com o efeito de «tranquilizar» as pessoas. Daí defender que «não se devem mudar em tempo de crise.» Apelidou isso de «absurdo». As leis, «a voz colectiva» que «dura no tempo» («só me muda quando é melhor ou aparece algo totalmente novo» - as «ditaduras vivem de mudanças repentinas de lei»), são um importante referencial («impõem um conjunto de relações entre as pessoas»), notando que a Europa tem as leis com que mais se identifica.

No entanto, estão a acontecer mudanças para leis menos humanistas, com o económico a se sobrepor à política, o que «é perigoso». Tal como quando o militar se sobrepõe à política. As leis nem sempre são éticas e boas, já que são frases escritas por pessoas, sendo importante «saber quem as escreve».

Alertou ainda para o facto de se dizer "isto é o mal" é «começar a fazer pontaria», mas que o «mal é mais um questão "do quê" e não "do quem".»

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A propósito:
«Cultura permite que as pessoas aumentem a lucidez»
Arte não se submete a nada nem a ninguém
Portugueses não olham para a cultura como bem essencial 

terça-feira, Março 25, 2014

Cultura, a «única eternidade terrena»

"A única eternidade terrena é a cultura." — Adriano Moreira na Visão #1098 de 20.3.2014
nota:
na mesma entrevista, pouco depois da frase citada, afirma o seguinte: «A sobrevivência é o único inferno que tem de se viver».

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A propósito:
Portugueses não olham para a cultura como bem essencial 
«Cultura permite que as pessoas aumentem a lucidez»

segunda-feira, Março 24, 2014

Solitude


«Sozinho, um homem ganha espessura,
em grupo, perde-a — ganha apenas companheiros.
E a aprendizagem da sabedoria não se acompanha
como se acompanha a aprendizagem de uma técnica manual
— pois a sabedoria não é uma técnica manual.»

Gonçalo M. Tavares
Uma Viagem à Índia
p. 268, Canto VI - 56, Editorial Caminho 2010, 1.ª edição

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Recorde-se:
«Solidão favorece intensidade do pensamento»
«A cultura permite que as pessoas aumentem a lucidez»

domingo, Março 23, 2014

Arte não se submete a nada nem a ninguém

«A arte é aquela que não se submete a nenhum regime, nem ao revolucionário» (Raquel Varela) e «funciona melhor como contrapoder» (Jorge Sousa Braga): é «território do pensamento» e este tem «poder revolucionário» (Eduardo Agualusa)

Embora no entender de Ricardo Araújo Pereira, a frase de Bernardo Soares «todos os revolucionários são estúpidos», retirada do Livro do Desassossego, seja «mais uma posição estética do que ideológica», não deixou de resumir a questão desta forma: «o curso do mundo é uma onda de tsunami e pensar condicioná-lo é estúpido.» E concluiu que o mundo é para ser contemplado.» Isto numa conversa cruzada integrada no Festival Literário da Madeira 2014, com moderação de Paulo Cafôfo, presidente da autarquia do Funchal, no dia 22 de Março, no Teatro Municipal Baltazar Dias.

Antes disso, a historiadora Raquel Varela, começou por reconhecer que «alguns são» estúpidos, mas que os revolucionários se distinguem por «não se enganarem a si próprios». Os revolucionários são os que «dirigem» as revoluções. Estas, que são «inevitáveis e ocasionadas dentro de regimes déspotas», são feitas pelo povo (ao subscrevê-las, ao lhes dar carne, diria eu...). E deu conta de vários exemplos ao fazer um périplo pelas revoluções do século XX.

O humorista citado referiu que «às vezes desistir é mais ajuizado do que interferir», já que «aleija menos e provoca menos desilusões». Sobre o poder do humor, disse que «há coisas que não consigo combater», dando conta dos limites revolucionários da comédia e «reconhecendo a impotência». Apesar disso, o humor «torna a derrota mais doce ou menos amarga». É um «prazer e transgressão na cara do medo». Remataria assim: «trabalho com o meu ponto de vista, a minha perspectiva e sou livre para falar sobre o que entender. O meu trabalho é fazer rir as pessoas da maneira que eu quiser».

O poeta portuense Jorge Sousa Braga arrancou com um verso de Vladimir Maiakóvski, «a canoa do amor quebrou-se contra o quotidiano», e colocou a questão num outro plano, ao dizer que são importantes as «pequenas revoluções interiores no quotidiano.»

José Eduardo Agualusa considera que «não há mais nada de subversivo do que o riso», mas Ricardo Araújo Pereira opina que «este não tem tanto poder.» É uma espécie de «arma dos fracos porque não têm acesso às outras armas que matam mesmo.» Para o humorista, a «comédia não tem poder real», embora «aborreça um bocadinho». E ilustrou com uma metáfora: «usar a comédia para derrubar um regime é usar a doçaria conventual para ir à lua.» Tem influência mas não sabe até onde.

Jorge Sousa Braga diria que arte «funciona melhor como contrapoder.» «A arte é aquela que não se submete a nenhum regime, nem ao revolucionário», defendeu Raquel Varela. Sendo a arte «território do pensamento», como colocou José Eduardo Agualusa, esse pensamento tem «poder revolucionário».

O escritor angolano afirmou que a revolução de 1974 começou com a «poesia e um movimento cultural». Raquel Varela encontra na miséria ou na guerra razões objectivas que funcionam como detonador das revoluções, mas que não sabemos quais as razões subjectivas, a ver com a dimensão humana, com os limites, a humilhação, a injustiça, entre outros factores.

Ricardo Araújo Pereira considera «estúpida» a violência, sendo o humor uma forma de «provocar convulsão física sem tocar» nas pessoas. E até pode ser «agressão sem tocar» fisicamente, como o caso do escárnio. Daí considerar que o «humor partilha a mesma estrutura do mal», mas que é o «último reduto da liberdade e da resistência.» Raquel Varela deu a nota que a «violência não faz parte da revolução e acontece mais por parte da contra-revolução.»

A historiadora deu ainda conta que as «pessoas acreditam na natureza humana», mas «eu não». E explicou: «não vale a pena idealizar as pessoas», até porque «a maioria das pessoas entrou no 25 de Abril [de 1974] com a mesma coragem com que tinha medo antes», durante a ditadura. O povo, o colectivo, as massas são a necessária presença para confirmação das revoluções pensadas por uma elite, acrescentaria eu. E rematou com um «nós não somos», porque há uma diferença entre ser e estar.

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A propósito:
Arte é independência

quarta-feira, Março 19, 2014

«Cultura permite que as pessoas aumentem a lucidez»

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À revista Mais do Diário de Notícias da Madeira (16 de Março de 2014), o enorme escritor português Miguel M. Tavares, falou sobre cultura e literatura.

Nem só de pão vive o homem: «Quando uma pessoa lê um livro, vê uma peça de teatro ou um filme, não é recompensado monetariamente. Mas com o tempo, a cultura que vai adquirindo, os livros que lê, etc, vai ter consequências também ao nível económico, e mais importante até do que isso, terá influência na formação humana da pessoa, será melhor pessoa, se relacionar melhor com os outros...»

Daí que o escritor afirme que «a Cultura é que permite que as pessoas aumentem a lucidez», embora consciente que «se uma pessoa não tiver as necessidades básicas satisfeitas, falar de livros é quase um luxo.» Nem o próprio Miguel M. Tavares teria tempo e disponibilidade para escrever/criar se estivesse a pensar na prestação do frigorífico por pagar.

E disse mais sobre o papel da cultura: «Ou nós achamos que a cultura é uma coisa apenas para satisfazer alguns durante algum tempo, ou achamos que a cultura é algo que fica, que faz parte do património de um país. E eu acho que a cultura deve ser vista como isto, como qualquer coisa que, quer na Arte, quer na Literatura, vai dando algo às pessoas. É isso que vai acrescentando uma qualidade ao clima, ao tempo, ao temperamento das pessoas, etc. Portanto se um país parar de produzir cultura vai apenas depender das coisas naturais, do charme natural... Acho que o nosso país tem um charme natural, tem condições muito bonitas, mas acho que temos de acrescentar alguma coisa, acho que é o nosso dever...»

A respeito da literatura afirmou: «Gosto da ideia que a literatura faz pensar.» No meu entender, literatura "a sério"é aquela que, por ser substantiva (isto sem qualquer elitismo, pretensiosismo e apenas fundamentado na realidade factual, passe o pleonasmo). Dito de outro modo é aquela literatura que fica a ecoar dentro de nós, que nos transforma, que nos faz estremecer, que aborda os temas essenciais no que toca à natureza humana e à vida, que nos enriquece e desafia a crescer mentalmente. Numa palavra, que nos abre a mente e a alma.

O escritor acrescentou a respeito do seu conceito de literatura: «É evidente que eu gosto de contar histórias. O Senhor Valery é uma história, o Jerusalém, o Viagem à Índia são histórias. Eu não tenho nada contra as histórias e tenho muito prazer em contar uma história. Mas acho que uma história em literatura não pode ser contada da mesma maneira como é numa telenovela, senão há alguma coisa que está mal. A literatura é outra coisa, é uma história que nos mexe de uma forma um pouco diferente de uma história de televisão, e eu acredito nisso...»

E disse ainda a tal respeito: «Eu não gosto da literatura como passatempo. Acho que a literatura deve dar prazer e dá muito prazer, mas é um prazer que não é o mesmo de ver uma telenovela. Não pode ser a mesma coisa, não é uma história que quando acaba, nós desligamos a televisão e pronto, não pensamos mais sobre isso. Acho que a literatura conta histórias que, espero quando os leitores fecham o livro, ainda fique ali qualquer coisa para pensar, que a história não termine com o fecho do livro. Até, às vezes há algo de importante que começa depois de terminarmos o livro.»

terça-feira, Março 18, 2014

Meninos bandidos



Dead Combo têm cá fora novo álbum: A bunch of meninos (vídeo) O guitarrista Tó Trips explica a crítica puxada para título: “O título já é uma história antiga, de 2008, quando o nosso produtor e técnico de som, o Helder Nelson, numa viagem para a Holanda, quando íamos lá tocar, se referiu ao governo da altura: ‘Estes gajos são a bunch of meninos’ e a expressão perdurou até aos nossos dias e achámos por bem usá-la.”

Embora admitam a existência de metáforas políticas no álbum, o sexto de originais, afirmam que «não [é] um disco político» (revista Actual de 8 de Março de 2014). Verdadeiramente, um menino é um «gajo armado em mau, em alguma coisa que ao fim ao cabo não é», diz Tó Trips. «Dá-se a conhecer por isto ou por aquilo, mas no fundo é um menino.»

Pedro Gonçalves, o outro elemento do duo, refere que, «no texto do álbum há uma coisa um bocado reboscada. Falo de um mexicano com um casaco de pele de coelho. É uma alusão um bocado estúpida ao nosso primeiro-ministro... É, assim, o bandido.» Apesar disso, considera que têm uma «atitude política deslocada dos Dead Combo. Sempre concordámos que podemos ter a nossa atitude política como cidadãos, mas como artistas é outra conversa.»

O guitarrista Tó Trips acrescenta: «os meninos podemos ser nós. Na capa, estamos armados em maus... É uma encenação, uma ficção, uma história. Como aquela frase "o país está melhor, mas as pessoas não" [proferida por um parlamentar do partido do actual Governo]. Mas, afinal, que país é esse? Que ficção é essa? O país são as pessoas, penso eu.»

Recorde-se que, em Outubro de 2013, António Lobo Antunes escreveu na sua crónica, na Visão de 31 de Outubro de 2013: «Qual Governo? É que não existe governo nenhum. Existe um bando de meninos, a quem os pais vestiram casaco como para um baptizado ou um casamento".» Mais recentemente, o general Garcia dos Santos afirmou que os «políticos que temos hoje são uns garotos» (jornal I de 17 de Março).

Vídeo do tema A bunch of meninos.