«Sozinho, um homem ganha espessura, / em grupo perde-a — e ganha apenas companheiros.» GMT

segunda-feira, Setembro 01, 2014

Travessia no deserto após 36 anos de drenagem

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Um domínio avassalador de um partido político e de uma liderança carismática e musculada (Virgílio Pereira disse que «persegue qualquer tipo de sombra que lhe possa surgir, mesmo que seja a do passarinho no galho da árvore à beira dele» - Revista Diário, 21.01.2006). Ocorreu desde 1978 e secou muito à volta do líder. Este dominou tal momento histórico, para azar de muitos potenciais líderes da sua geração. Por isso, haverá uma travessia no deserto após 36 nos de drenagem das oposições. Isto apesar do tónico saudável das «verdejantes» mudanças.

O poder vai, como se costuma dizer, «cair na rua», com as devidas consequências. Ninguém o conseguirá evitar. É uma transição que tem de ocorrer, mas que se espera o mais curta e dolorosa possível, para a vida dos madeirenses. Até ao momento em que se renovem os quadros que, além da competência técnica, tenham acima de tudo Visão de futuro, sentido de Estado e de Serviço Público. Que pensem mais em elevar as condições de vida dos seus concidadãos do que na satisfação do interesse próprio.

Isto a propósito de declarações de Carlos César, no Diário de 1 de Setembro de 2014, no sentido de que a oposição, neste caso referia-se ao maior partido da oposição, tem de «se habilitar e qualificar para o efeito. O povo da Madeira votará numa alternativa na qual confie.» Isto é, as pessoas não vão votar em qualquer projecto político só em nome da alternância, mas apenas se houver a tal alternativa que mereça confiança.

O referido monopólio governativo e de liderança mais o ambiente insular, que é pouco competitivo (as oportunidades são escassas, os estímulos são limitados, o espaço para as pessoas crescerem e progredirem é reduzido), afastaram e/ou comprometeram a formação de mais quadros. Se, na Madeira, já existe pouca escolha, a cristalização dos mesmos nos cargos diminuem essa escolha/surgimento de novos quadros.

Se até o actual presidente do Governo Regional se queixa da falta de quadros, daí ter mantido boa parte dos mesmos deputados e secretários regionais durante décadas, imagine-se os partidos que não detiveram qualquer poder de governação para atrair mais quadros, caminhando de desgaste em desgaste, desde 1978. Mas, os pecados apontados à governação PSD foram mimetizados e replicados em outras esferas da sociedade.

No Diário de 30 de Outubro de 2008, lia-se que Marco Gomes, director da Escola da APEL, escola privada madeirense, que durante cinco anos foi director pedagógico do Colégio Manuel Bernardes em Lisboa, afirmava o seguinte: «Não tenho dúvidas de que os alunos madeirenses são diferentes dos de Lisboa», onde a «competição, o esforço e o tempo dedicado aos estudos era muito maior». Parece que a escola da ditadura, antes da Revolução de 25 de Abril de 1974, afinal conseguia formar bons quadros, embora sempre associados a elites sociais, com competência e princípios.

terça-feira, Agosto 26, 2014

«O detalhe é sempre mau» (really?)

in «Palavras do Livro do Desassossego» de Bernardo Soares (Fernando Pessoa): Edições Centro Atlântico, com edição de Libório Manuel Silva

Este texto é a parte dois do post anterior intitulado «A felicidade nas pessoas inteligentes é a coisa mais rara que conheço», que será tendencial para a inteligência consciente, analítica, com uma «lente forte» sobre a Realidade e a Existência.

Quando Fernando Pessoa, ele mesmo um «espírito altamente analítico» e uma inteligência profundamente consciente e meditativa, afirma, através do heterónimo Bernardo Soares, que o «detalhe é sempre mau», dado que «os espíritos altamente analíticos vêem (quase que) só defeitos: quanto mais forte a lente, mais imperfeita se mostra a coisa observada», o que quer dizer?

Antes de mais, é uma frase com que muitas pessoas concordariam. À letra, é como se ele estivesse a dizer algo como «felizes ou bem-aventurados os pobres (humildes, simples) de espírito, porque deles é o Reino dos Céus». Isto é, o bom é não analisar e não ver o detalhe, ficar pela rama, para alguns dominarem a manipularem os simples e humildes... Quem domina não interessa, cá neste mundo terreno passageiro e inferior. O interesse é viver de forma simples para ganhar o outro mundo, o Céu. Esse sim, tem valor (mas nem os crentes, em circunstâncias normais, querem deixar este mundo quando chega a sua hora... e por alguma razão choramos quando um ente querido parte, apesar de ir para o Céu). E assim é mais fácil a aceitação da ordem natural e não-natural das coisas.

Discordo de Fernando Pessoa quanto ao «detalhe» e ao «espírito altamente analítico» ser «sempre mau», porque até o detalhe pode fazer toda a diferença entre talento e o não-talento ou entre a vida e a morte (basta pensar, por exemplo, no trabalho de um cirurgião). Nessa ordem de ideias a inteligência também seria má. Nem Pessoa acreditava nisso. Bem pelo contrário. É um desabafo no sentido de, em certas alturas, desejar não ver tanto detalhe (ter tanta consciência das coisas) que o inquietava. Detalhe como prisão e não como uma forma de liberdade e elevação. não há bela sem senão. Não há nada perfeito e exacto.

Em certo sentido, seria mais fácil, emocionalmente, não pensar, ver tanto ou ser livre. Recupero o «Feliz o homem marçano» que «tem a sua vida usual, / Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio, / Que dorme sono, / Que come comida, / Que bebe bebida, e por isso tem alegria.» Nada de metafísicas... basta as formas de amparo, consolo, escape e alienação (permitidas) face à realidade existencial, esta que termina sempre na morte.

Quem analisa (está só com os seus pensamentos e lucubrações), faz perguntas (a minha vida não pode ser diferente?) e tem ideias perturbadoras, malucas e perigosas, convém ser integrado num colectivo para que, juntos, todos pensem os pensamentos que todos pensam. Pensamentos normais. Os de sempre. O mesmo. «Sobre o que conversam os cavalos domésticos nas colónias de férias? Eles conversam sobre cabrestos, arreios, carroças, cavaleiros, carroceiros... E, assim, os cavalos selvagens continuam enterrados...», diz Rubem Alves no livro Se eu pudesse viver a minha vida novamente... (Edições ASA, 2005).

A igreja instituição, e aqui não se critica a necessidade da espiritualidade por parte do Homem, que é algo pessoal e íntimo, diz que o humilde e simples será preferido ao sábio que acredita mais em sim mesmo do que em Deus. Consubstancia uma desvalorização do muito saber e da própria vida neste mundo material (uma ilusão) face à transcendência, onde reside o sentido da vida, onde a vida é eterna e não termina na morte. Porque a humildade é uma atitude de submissão (a Deus). A submissão ao dictato divino (e à comunidade/autoridade religiosa) é a chave, para permitir os reinos e os reinados.

E então diz-se que a felicidade do homem se faz com a humildade de espírito e a riqueza das qualidades morais, que o fazem um cordeirinho... Esses humildes têm as riquezas morais e os outros deitam mão às riquezas terrenas, materiais. Uns aproveitam a vida, o momento presente neste mundo, fazem um festim e vivem em pleno, enquanto os outros carregam a cruz para ganhar o outro mundo que há-de vir, o verdadeiro.

Assim, quando se defende que o «detalhe» é mau (um demónio), e que deve ser evitado, pretende-se a malta anestesiada, submissa, controlada. Quem tem olho (vê o detalhe), numa terra de cegos (quem não vê defeitos), é rei. Oliveira Salazar não diria melhor. Não vale a pena saber muito... ou ler certos livros... ou entregar-se a análises que ponham em causa a ordem das coisas... Só faz mal às emoções e atrapalha a felicidade.

E a história de que os espíritos analíticos vêem só defeitos é uma falácia porque vêem mais e melhor tanto os defeitos (negativo) como tudo o resto (positivo). Tudo faz parte da realidade. É claro que ver certos detalhes não dá nada jeito aos poderes (dictactos) e há formas de desmotivar (e até reduzir o autoconceito) desses espíritos dados à actividade detalhística... Para haver menos motivação para lutar contra as injustiças.

A religião organizada ou o comunismo, para dar dois exemplos de certa forma em extremos opostos, têm em comum o preterir desses «espíritos analíticos» individuais, que pensam por si próprios, que são independentes (os tais solitários), e enaltecem o colectivo, o colegial, o comunitário. Nada de solidão contemplativa onde florescem os pensamentos (perigosos). A ociosidade não é declarada como a mãe de todos os vícios? Mais uma vez a questão central da submissão a um dictato (colectivo, neste caso, mas que tem sempre uma cabeça, uma liderança, uma individualidade ou elite), mas como observou Nietzsche, «nos indivíduos, a loucura é algo raro - mas nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra.»

E não se pense que o «detalhista» solitário, isto é, o rebelde, fica impune. Ele não pode vencer, até porque está em desvantagem face ao corpo colectivo - não há exércitos de um homem só. Há custos existenciais para quem resiste e teima em contrariar o impulso/pressão herdado para o conformismo e a natureza social inerente e instintiva no ser humano. Pode fazê-lo sentir rejeição, raiva, ressentimento, amargura, desdém, revolta e, até, misantropia. «Todo o revolucionário é associal, se o impulso for nele um desvio da vida instintiva, e não uma atitude de homem capaz de obedecer e mandar a si próprio», referiu Agustina Bessa-Luís, a respeito da construção da personalidade criadora, in Alegria do Mundo.

A resistência aos conformismos colectivos pode tornar o rebelde em algo ainda mais desprezível do que tenta não ser, porque ele não se revolta apenas face a uma dada sociedade, mas contra algo essencial no ser humano: a sua natureza ou instinto social. Daí a rejeição (o desprezo pelos companheiros) ser um castigo duro.

Mas, também há benefícios, como a autenticidade (verdade) e máxima expressão do eu no mundo. «Sozinho, um homem ganha espessura, em grupo, perde-a — ganha apenas companheiros», lê-se Gonçalo M. Tavares em Uma Viagem à Índia (p. 268, Canto VI - 56, Editorial Caminho 2010, 1.ª edição). A autenticidade e a «espessura» traz paz interior e liberdade. Não será a liberdade algo que faz parte da essência do ser humano? Ser humano é ser livre? Jean-Paul Sartre afirmou: «man is freedom»; «we are condemned to be free». Portanto, a existência é feita de solidão (individualidade) e de socialização (colectivo): cada qual equilibra ou não da forma que se sente autêntico e feliz. O que deve merecer o respeito alheio. O tempo de solidão é encarado como incómodo, infelicidade ou uma atitude anti-social.

Retomando o «detalhe», podemos dar até o benefício da dúvida a Pessoa e pensar que ele está mais preocupado no bem-estar pessoal (e social) dos espíritos analíticos, que se podem cansar, perturbar e inquietar com o muito que vêem, mas não gosto da ideia... Se for o próprio indivíduo a decidir que não quer analisar e ver o detalhe é uma coisa, se forem terceiros a impor se deve ver ou não o detalhe, será algo totalmente inaceitável.

Na verdade, são formas de dominar as massas, pois como defendia o já citado Nietzsche, nada mais terrível do que a supremacia das massas... Ele defendia ainda o tal super-homem (individual), com capacidades acima dos outros, a quem caberia o dever de elevar-se além dos limites estabelecidos pela normalidade. Homem como um deus. Uma blasfémia.

A fragilidade e vulnerabilidade da vida (a omnipotência humana acaba, um dia, por tombar perante a inexorável passagem do tempo, a doença, a crepitude, o sofrimento e a morte) são uma fatalidade e a condição, e ainda a chantagem, implacáveis, para acomodar e conformar o Homem toda uma vida. Tudo acaba, inclusive a tal omnipotência humana, que é aparente e efémera. Mas pode ser aproveitada enquanto dura, porque, no fim, tanto caem (sofrem e morrem) os omnipotentes como os humildes e servis... Porquê viver com medo, acanhado, subserviente, se o sofrimento e o fim são certos, um dia? Com respeito e ciente da nossa pequenez perante o Universo e a Existência, mas sem medo, sem se anular e vivendo/expressando-se na máxima potência da vida.

Apesar de tudo, o detalhe é uma benção: mesmo que algum desassossego do eu não seja evitado, o detalhe faz a diferença desde que não perturbe a musicalidade (harmonia) necessária ao indivíduo. Só tenho pena de não ver ainda mais detalhe, mesmo que este seja passível de perturbar a felicidade do indivíduo «analítico», quando não consegue evitar a inquietação, os detalhes menores ou acessórios e assegurar a referida musicalidade vivencial.

Triste mesmo é a cegueira (ilusão e aceitação irreflectida), mesmo que o indivíduo seja alegre, tenha maior conforto psíquico e social, e o caminho seja mais fácil e tranquilo, numa vida mecanizada (casa - trabalho - casa - cemitério), ditada por outros e sem espaço para questionamento. É tipo, se soubesses o que custa ver o detalhe, nunca o quererias ver...

Por algum motivo a opção de tirar «jovens sem ocupação de tempos livres, esfregando os rabos pelas esquinas da baixa citadina, fumando “passa” e cultivando angústias existenciais (tão “progressista”!...)», neste caso por via da actividade desportiva. E poderia passar por outras culturas, que não só a desportiva, até porque se pode argumentar que «a única eternidade terrena é a cultura», que também confere sentido, amparo e alegria à vida). Mas certa cultura e certo saber são mais perigosos...

Desde que não saia de controlo, qualquer governo terreno promove ou condescende com os muitos e variados ópios do povo (escapes), uma forma de a malta deitar as energias cá para fora e fazer a catarse de frustrações e angústias várias, nomeadamente as que são derivadas da dominação e restrição de liberdades individuais (mesmo as bem intencionadas). Ou tão somente libertar a energia central no ser humano, a líbido, que impulsiona a vida, como documentou Freud. E assim se evitam frustrações, questionamentos e a proliferação de rebeldes.

Por outro lado, apesar de o dizerem, nem toda a gente quer liberdade nem detalhe. Citando de novo Rubem Alves, a «liberdade [ou o detalhe] traz muita confusão à cabeça. Melhores são as rotinas que nos livram da maçada de ter que tomar decisões sobre o que fazer com a liberdade [e o detalhe]. Quem tem rotinas não precisa de tomar decisões. A vida já está decidida. O cavaleiro nem precisa de puxar a rédea: o cavalo sabe o caminho a seguir.» Há cavalos que até sentem «saudades do arreio e da carroça, querem voltar, porque se cansam da liberdade [do detalhe].»

[Texto afinado em alguns detalhes :-) em 28.8.2014]
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A propósito:
«A felicidade nas pessoas inteligentes é a coisa mais rara que conheço»

domingo, Agosto 24, 2014

«A felicidade nas pessoas inteligentes é a coisa mais rara que conheço»

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«— A Nina era feliz? - perguntou Catherine.
— Espero que seja feliz - respondeu a rapariga [Marita]. - A felicidade nas pessoas inteligentes é a coisa mais rara que conheço

Esta passagem («Happiness in intelligent people is the rarest thing I know») integra o início do capítulo onze do segundo livro póstumo de Ernest Hemingway, The Garden of Eden / O Jardim do Éden, publicado em 1986, vinte e cinco anos após a sua morte.

Álvaro de Campos disse-o em verso: «Estou cansado da inteligência. / Pensar faz mal às emoções». Ou ainda: «Pára, meu coração! / Não penses! Deixa o pensar na cabeça!» Como se razão e coração pudessem ser separados. Faz mal ao coração pensar, faz mal à cabeça sentir? O pensar consciente, realista, sensível e inconformado inquieta a alma e o coração.

Aristóteles já sabia que a inteligência fazia mal às emoções: “All men who have attained excellence in philosophy, in poetry, in art and in politics - even Socrates and Plato - had a melancholic habitus; indeed, some suffered even from melancholic disease.”

No poema Il Penseroso (O Meditativo) de John Milton, o sujeito poético invoca a deusa Melancolia, coberta com um véu negro:

But hail thou Goddess, sage and holy,
Hail divinest Melancholy
Whose Saintly visage is too bright
To hit the Sense of human sight;
And therefore to our weaker view,
O'er laid with black, staid Wisdoms hue. (lines 11–16)

Perante o absurdo da existência, os existencialistas colocavam três caminhos: voltar-lhe as costas, como acabou por fazer Hemingway em 1961, seguir um caminho de conformismo face às normas, significados e metodologias de viver já ditadas/herdadas ou, então, optar pela via do inconformismo: expressar-se de algum modo e criar significado no mundo, marcar a sua individualidade (não se resumir nem ser-se reduzido à existência da multidão/rebanho), ser senhor da sua vida, ser autêntico. Esta terceira via requere algumas ferramentas.

Não é a «inteligência», só por si, em termos de coeficiente, que faz com que a felicidade seja mais rara nos seus titulares. É a inteligência consciente do absurdo da existência e da realidade (o realismo pode causar inquietação e até pessimismo e menor grau da aceitação do estado de coisas); é a inteligência inconformada com os limites colocados por tal existência; é a inteligência dotada de elevada sensibilidade sobre a vida e o mundo; é a inteligência contemplativa e meditativa; é a inteligência com ambições existenciais de expressão, liberdade e autenticidade do eu.

Uma mente que aprofunda o diálogo interior, que elabora mais e se entrega a longas jornadas mentais, com maior acesso à realidade existencial e do eu que percepciona, terá mais dificuldades em aceitar as coisas como são, ignorar certas realidades, encolher os ombros e continuar a viver como se nada fosse.

São pessoas que, geralmente, aprofundam as questões vivenciais e que aspiram mais além ou mais acima («minha alma, se te matei / Perdoa por esta vez. / Fiz-te aspirar tão acima / Que desceste onde hoje vês, a seres um bicho-de-conta / Que te enrolaste de vez» - Bicho de Conta de Luiz de Macedo). E, com isso, pode vir a ansiedade e a angústia, obstáculos à felicidade. E, se calhar, mais criatividade e outras possibilidades de felicidade...

Na introdução d'O Turista Espiritual de Mick Brown pode ler-se: «Aquilo que Connolly chama Angst [termo alemão utilizado em filosofia para o estado recorrente de ansiedade ou angústia] é o acumular das pequenas incertezas sobre o lugar que ocupamos na ordem das coisas, a sensação enervante de que, de algum modo, a vida podia ser melhor, se ao menos, se ao menos.... o quê? É o desassossego do eu.»

No mesmo livro refere-se o seguinte: «"O segredo da felicidade", escreveu Cyril Connolly, "está em evitar a Angst. É um erro considerar que a felicidade é um estado positivo. Afastando a Angst, a condição de toda a infelicidade, ficamos preparados para receber as graças divinas que surjam no nosso caminho."»

Parece que há pessoas, as mais conscientes, meditativas e inconformadas sobre o mundo e a vida, que não se livram da Angst, do Desassossego, da Inquietação, como é ilustrado no Mestre de  Álvaro de Campos:

Na angústia sensacionista de todos os dias sentidos,
Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser,
Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos,
[...]
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.
[...]
Depois tudo é cansaço neste mundo subjectivado,
Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.

John Keats escreveu: "Do you not see how necessary a World of Pains and troubles is to school an Intelligence and make it a soul? A Place where the heart must feel and suffer in a thousand diverse ways!" (Excertos das Keats's Letters, datadas de 21 de Abril de 1810).

O que ignoramos não nos afecta, não nos faz sofrer. Daí muitas vezes o elogio da existência simples, sem lucubrações, da ilusão, da superficialidade, do conformismo. «The dumbest creatures are always the happiest...», disse a personagem George Falconer (Colin Firth) no filme A Single Man (2009). Novamente, aqui «dumb» não tem a ver exclusivamente com coeficiente de inteligência. No mesmo poema já citado de Álvaro de Campos lemos o sequinte:

Feliz o homem marçano
Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve ainda que pesada,
Que tem a sua vida usual,
Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio,
Que dorme sono,
Que come comida,
Que bebe bebida, e por isso tem alegria.

Por outras palavras, feliz é o homem que não tem inquietações existenciais, inconformismos, nem se entrega a contemplações. Todavia, será que sobreviver basta ao ser humano, que é dotado de razão e que precisa de progredir, de prosperar, de desenvolver-se, conhecer, elevar-se e alcançar objectivos ao longo da seu percurso existencial?

Viver inconsciente, iludido e aceitando tudo (circunstâncias, eventos e a si próprio), tem as suas vantagens, como a libertação da angústia e da consciência das coisas. Há quem prefira, mesmo sendo mais difícil, optar pela densidade, isto é, ser sempre um consciente inconformado e insatisfeito (activo e com os pés e cabeça na realidade), do que um inconsciente iludido e alegre (passivo e na irrealidade), embora no conforto do conformismo prático.

Todavia, nem é uma questão de escolha: é de ser quem se é, de se ser autêntico. Como pode alguém ser quem não é? N'O Jardim do Éden de Ernest Hemingway podemos ler: «When you start to live outside yourself, it's all dangerous.»

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A propósito:
«O detalhe é sempre mau» (really?)

quinta-feira, Agosto 21, 2014

Querer a destruição do outro não conduz à paz

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O drama maior é estarem no meio civis que sofrem, palestinianos em maior número, mas os povos também são vítimas dos líderes que escolhem. Israel, por seu lado, está "condenada" a ser o "reles agressor", mesmo que responda em contra-ataque e sofra baixas. Do lado israelita é como se as baixas não contassem, então se forem soldados é como se merecessem..., porque tem mais força, isto é, poder militar e económico.

Enquanto um dos lados, o Hamas (felizmente apenas uma parte dos palestinianos), querer a destruição do outro (Israel), nada feito.

Não estou de um lado, nem do outro, estou do lado daquelas atitudes e estratégias que, de qualquer um dos lados, incluindo os seus aliados no exterior, sejam passíveis de conduzir ao entendimento e à coexistência pacífica, assumindo tanto perdas como ganhos (solução sem perdas não existe). Não estou preso a teias ideológicas que me obriguem, cegamente, a estar de um lado ou do outro.

A propósito:
Opinião Miguel Esteves Cardoso (jornal Público 20.08.2014)
Compreender as origens da guerra em Gaza em 5 minutos (jornal Le Monde)
O essencial para compreender o conflito iraelo-palestiniano (Observador 13.07.2014)

domingo, Agosto 17, 2014

Estado da Amizade

«Et tu, Brute?» (E tu também, Brutus?), exclamou o imperador Júlio César ao seu amigo Marcus Brutus, no momento em que foi apunhalado e assassinado por um grupo de senadores (imagem da pintura Morte di Cesare de Vincenzo Camuccini)
O valor da Amizade também está em crise? O que têm as redes sociais, a crise económica e social ou Alberto João Jardim a ver com isso? É um tema de interesse humano, que merece análise e reflexão num tempo de relativismo dos valores e do que é essencial.

1.
Comecemos por pensar sobre a Amizade. Não com as comuns definições de dicionário, mas pelo que de mais profundo e subtil nos diz sobre a Amizade uma personagem no famoso romance As velas ardem até ao fim de Sándor Márai, entre as páginas 102 e 104 (Publicações Dom Quixote 19ª edição: 2009).

«Não há processo emocional mais triste e mais desesperado que quando uma amizade entre dois homens arrefece. Porque entre um homem e uma mulher tudo tem determinadas condições, como o regateio no mercado. Mas o sentido mais profundo da amizade entre homens é precisamente o altruísmo, o facto de não querermos o sacrifício do outro, nem ternura, não querermos nada, apenas manter o acordo duma aliança silenciosa.»

«Éramos amigos, não companheiros, compadres, ou camaradas. Éramos amigos e não há nada na vida que possa compensar uma amizade. Nem mesmo uma paixão devoradora pode oferecer tanto prazer como uma amizade silenciosa e discreta proporciona àqueles que são tocados pela sua força.»

«Porque a amizade não é um estado de espírito ideal. A amizade é uma lei humana rigorosa. Na antiguidade era a lei do mais forte, nela se baseavam os sistemas jurídicos das grandes civilizações. Para além das paixões e do egoísmo vivia essa lei, a lei da amizade, nos corações humanos.»

Explica ainda a razão de a amizade ser «mais poderosa que a paixão»: «a amizade não podia levar à desilusão, porque não queria nada do outro, podia-se matar o amigo, mas a amizade que se formou na infância entre duas pessoas, talvez nem a morte a pudesse matar: a sua recordação continua a viver na consciência das pessoas, como a recordação dum acto heróico silencioso.» Um acto heróico «como qualquer atitude humana que é desinteressada.»

2.
As redes sociais apresentam vantagens. Além de permitir exercitar a partilha, a escrita e o pensamento, é um meio de contacto, de encontro e de comunicação entre as pessoas, embora haja o risco de também «ampliar solidões», como referiu o poeta madeirense José Tolentino Mendonça (Estante - Abril de 2014). Acrescenta que é também um «lugar de muito desencontro, de muita desconfiança.»

Até que ponto se firma a Amizade na superficialidade dominante e confundindo-se virtualidade com realidade? Por alguma razão o Facebook, por exemplo, criou mecanismos para distinguir entre «amigos» e «conhecidos»: não é possível ao ser humano dar atenção a tanto amigo, mesmo virtual. «Os meus amigos reais já se queixam tanto da minha falta de tempo. [Aderir ao Facebook] seria só criar mais amigos insatisfeitos, e mais culpabilidade», referiu ainda José Tolentino Mendonça na já mencionada entrevista, que é ainda citada no parágrafo seguinte.

A Amizade exige profundidade, dedicação, perenidade, desinteresse, no sentido que vimos, e o tal «silêncio» ou recato. Ora, as redes sociais primam pela superficialidade e pela virtualidade («também é um mundo de muita ilusão e fabricação»), pela venda de uma imagem irreal trabalhada pelos próprios («onde é o mais o que as pessoas desejam ser do que aquilo que são»), pelo alarde e ruído, pelo interesse e competição em vender a tal imagem, nomeadamente na exibição de uma grande colecção de amigos, e por uma qualidade efémera: num click se faz ou desfaz uma "amizade".

Os políticos, por exemplo, motivados pela questão da popularidade e interesse eleitoral, gostam de ter muitos amigos e têm aderido muito às virtualidades das redes sociais. Veja-se que até o líder da Santa Sé, seja por via do Twitter, mais personalizado, mas também Facebook, Youtube, Flickr, tira partido desses meios face às vantagens comunicacionais, isto é, de propaganda, na venda das ideias do Vaticano ao serviço da difusão da fé cristã.

Há amigos que, movidos pelo interesse, conduzem à desilusão e ao desgosto. Mesmo amigos concretos, fora das redes sociais, podem revelar-se virtuais e aplicar umas facadas nas costas. A frase «Et tu, Brute?" remete a uma famosa história no século I A.C., em que o imperador romano Júlio César foi vítima de uma conspiração de senadores para tirá-lo do cargo. Entre os algozes estava o amigo Marcus Brutus. O assassinato consumou-se através de punhaladas.

Um simples guia para raparigas adolescentes (Violetta: a Amizade - 2014 Disney Interprises/Goody S.A.), depois de definir a amizade como um dos «sentimentos mais belos e únicos do mundo», começa por dizer as qualidades de uma verdadeira amiga: «nunca te trairá» surge logo em primeiro lugar. E explica: «podem zangar-se, não estar de acordo sobre algo, talvez perderem-se de vista por algum tempo, mas nunca, em tempo algum, uma verdadeira amiga trairia a tua confiança. Ela sabe o que é mesmo importante para ti e não fará nada que te possa magoar.» No final do livro, umas das dez regras ou mandamentos da amizade é, precisamente, esta: «uma amiga de verdade nunca trairá a tua confiança.»

Saliente-se que, no contexto da actual crise económica e social, na Região e no País, amizades verdadeiras e bem reais se têm revelado através de actos nobres. Com solidariedade e sem lugar a punhaladas nas costas, isto é, traição. E são actos discretos, que não necessitam de publicitação e alarde, precisamente devido à natureza desinteressada, altruísta e silenciosa da Amizade.

3.
É do domínio público as célebres «facadas nas costas» alegadas pelo actual presidente do Governo Regional e líder do maior partido político da Região, Alberto João Jardim. Aqui não me interessa opinar sobre o político ou a política, mas tão somente observar a parte humana, que é o essencial neste post sobre o estado da Amizade.

Como afirmou o próprio protagonista, «há uma coisa que é muito sagrada, por mais humilde que seja o seu titular, que é a [A]mizade» (JM de 21 de Janeiro de 2014).

«Um dos meus me meter a faca nas costas?», referiu Alberto João Jardim em entrevista na RTP-Madeira (1 de Julho de 2014), que repetidamente tem falado no assunto, precisamente porque constitui uma desilusão e desgosto devido à deslealdade, abandono, ataque e amarfanhamento na praça pública de que se diz vítima. As «facadas nas costas» podem ferir de morte uma pessoa, porque custa muito a aceitar tal tipo de rejeição.

Na citada entrevista, disse ainda: «eu aceito também ser agredido pelo meu adversário. É a regra do jogo. Agora, um dos meus me meter a faca nas costas? Isso é extremamente doloroso. Não entra nos meus esquemas mentais. Um tipo está do meu lado e, de repente, mete uma faca nas costas. Desde 2012 tem sido uma coisa horrorosa.»

Em 17 Fevereiro de 2014, no JM, denunciava mesmo uma alegada tentativa de assassinato político: «estamos a assistir a parricídio. Tal sucede, quando gente cega pela ambição política, ou pelo oportunismo de tactear como vai salvar o futuro, ou por sobrevivência que não olha a meios, ou ainda pela falta de personalidade em querer enfileirar na moda do «politicamente correcto», cada um, de um momento para outro, trai laços, compromissos, projectos comuns, amizades de antes, só para seu egoísmo e avidez de poder.»

“O tiranete sairá jogado e espezinhado sem dó nem piedade”, previa, face aos eventos no seio do PSD-M, Avelino da Conceição, deputado do PS na ALM, citado no Diário de 23 de Janeiro de 2014. O pior momento do líder e a conjuntura desfavorável é altura para enterrar ainda mais quem já não tem a frescura física de outros tempos.

Perante o desgosto da alegada deslealdade, e vendo as coisas mal paradas, apela ao Povo Madeirense para ajuizar sobre essa traição de que é alvo. «Como se o Povo aceitasse a falta de carácter que o parricídio político revela!», escreveu no JM de 17 de Fevereiro do corrente ano. «Como se o Povo se fosse fiar em traidores e mentirosos, conspiradores quotidianos para se darem ares e pouco sabendo fazer da vida». E antes no JM de 22 de Janeiro: «É bom que a população da Madeira e do Porto Santo não caia numa triste figura de não perceber o que se anda a urdir contra si própria.»

Explica que «ser traído politicamente, levar uma faca nas costas políticas é inadmissível», referiu Alberto João Jardim no JM de 13 de Julho de 2014. «Mostra o carácter das pessoas que o fazem», acrescentou. E exemplificou, no JM de 21 de Julho de 2014: «nas últimas eleições autárquicas, vários [companheiros de partido] do campo derrotado nas eleições internas do PSD em 2012, traíram e, ressabiados, mandaram votar na Oposição - vejam o carácter!... - como ficou provado nos lógicos e legítimos processos que levaram a expulsões.»

Sobre o "cuspir no prato", escreveu-se no JM de 21 de Janeiro do corrente ano: «Indivíduos que sempre estiveram ao meu lado e secundaram todas as minhas decisões ao longo de mais de trinta e cinco anos, agora, só para satisfazerem as suas ambições ou continuarem a servir aqueles a quem se dobram, de um momento para outro passaram a me atacar em público, esquecendo dezenas de anos de solidariedade activa, esquecendo a amizade que sempre lhes dediquei, só para cativarem os apoios dos inimigos do PSD. Isto é falta de carácter!»

Na mesma edição lia-se um apelo, desta vez especificamente para os madeirenses que militam no partido: «E os Militantes sinceros do PSD, os que são autonomistas e sociais-democratas, estão a ver o que se passa, e tenho a certeza de que, na hora própria, darão a resposta adequada a tal tipo de gente».

No Diário de 1 de Março de 2014, o jornalista Miguel Silva diz que «alguns dos que fizeram toda a viagem do ‘jardinismo’ querem saltar do navio como se não fosse nada com eles, como se não estivessem comprometidos.» Escreveu ainda que, «ao ritmo que já vai a tentativa de distanciamento, ainda vamos chegar a uma fase em que a maioria que viveu politicamente à custa ou à sombra do presidente do PSD-M e do Governo, o vai renegar por completo».

Apesar de tudo, o protagonista político prometeu: «não me deixarei intimidar mesmo pelos que, aduladores de muitos anos, agora metem facas nas costas, indiferentes à injustiça»(JM de 21 de Janeiro de 2014).

4. Termino este texto sobre o estado da Amizade com uma passagem do tema Desabafo de Um Qualquer Angolano, de Nástio Mosquito, que em poucas palavras diz o que é essencial ao ser humano, como ser social: «Que se orgulhem de mim, que se lembrem de mim, que se juntem a mim - Amizade».

Autonomia como destino



A ilustre jornalista Raquel Gonçalves, por quem nutro simpatia, escreveu (blogue A preto e Branco na dnoticias.pt) que o madeirense «já não quer aquela conversa fiada de mais Autonomia, de Centralismo e de estudos pseudo-académicos sobre o Deve e o Haver pagos a peso de ouro a historiadores do regime.»

Encaro esta afirmação sobretudo como uma crítica à actual governação, porque penso que os madeirenses querem (e devem, natural e legitimamente, querer mais Autonomia), apesar de, por exemplo, Antero Monteiro Diniz, ex-Ministro/Representante da República para a Região Autónoma da Madeira, não dar isso como assente, no seu livro Evolução ou Continuidade: reflexões sobre o sistema autonómico da Madeira (p.114), em que coloca, entre muitas outras questões prévias, a seguinte:

«Será que a população e o eleitorado da Madeira pretendem verdadeiramente alterar o condicionalismo político, económico e social existente, ou ao contrário, mantê-lo e preservar a sua continuidade?»

Mas, diz outra coisa. Não fazer nada e apostar na continuidade é ficar-se bloqueado, porque «tem-se por seguro que o sistema actual e todos os seus órgãos políticos - Representante da República, Assembleia Legislativa da Madeira e Governo Regional - se encontra bloqueado, frustrando as expectativas dos constituintes fundadores, reclamando-se uma reformulação capaz de flexibilizar o seu funcionamento».

A Autonomia é algo transversal e estrutural, que não pertence nem deve ser a bandeira de um só partido, com vantagem para o próprio se for só ele que recolha, por exemplo, louros eleitorais de uma visão mais ambiciosa e mais ampla sofre o futuro da Autonomia. Porque há muito caminho para fazer em termos autonómicos. É um processo evolutivo.

A maturidade democrática da sociedade madeirense será um elemento importante nesse processo. Não se pode confundir quem governa no momento com as legítimas aspirações autonómicas de um povo ou o subsistente e discriminatório centralismo do Estado. A Autonomia será também o que os madeirenses fizerem dela. Nenhum Governo Regional pode cair na tentação de instrumentalizar os poderes autonómicos no sentido de favorecer ou desfavorecer qualquer sector, instituição ou cidadão, como alguns temem.

A felicidade de um povo não tem a ver apenas com a sobrevivência assegurada e o bem-estar económico e social. O ser humano, acautelada a sobrevivência, aspira a outros patamares e precisa desenvolver-se/progredir/elevar-se. Tem também a ver com o viver a sua própria vida e fazer as suas próprias escolhas.

A autonomia (1) tornou-se um valor chave nas sociedades livres. O madeirense não se deve conformar à Autonomia que já conquistou. O inconformismo é importante para o progresso. As escolhas de um povo são as melhores porque são as suas escolhas, mesmo que não sejam as melhores, passe-se a aparente contradição.

A Autonomia é imparável e seria trágico se se abrisse mão dela por actos, hesitações ou omissões. É um valor que tem de estar acima de querelas domésticas e do culto de egos. Seria a estagnação. Ela continua a ter, naturalmente, inimigos lá fora, mas todos os madeirenses querem o melhor para a sua terra e querem ser senhores do seu destino. E são responsáveis pelos líderes que escolhem para liderar e concretizar tais desígnios.

Um forte apelo da Autonomia é a luta activa e real (e possibilidade de fracasso) que ela implica, para estes portugueses no meio do Atlântico realizarem as suas conquistas (obter melhores condições de vida, escolher e comandar o seu destino). Se nos dessem autonomia sem ser nossa conquista, não seria a mesma coisa, porque precisamos de ser activos e estar no controlo das coisas, em vez de sermos subjugados e passivos.

Temos de ser nós a encontrar e a conquistar o nosso caminho. Um povo que aprendeu a sobreviver, em condições muito difíceis nestas ilhas, a transformar a paisagem natural e a dominar a orografia agreste com as suas mãos, não espera nem quer nada de mão-beijada. Não pode é conformar-se, por mais confortável que seja, no imediato, à sua fraca «intervenção pública na avaliação e julgamento do poder político, acomodando-se, ao contrário, salvo sectores minoritários, numa postura de indiferença, ou de passiva e silenciosa aceitação», para citar ainda Monteiro Diniz.

Os madeirenses não podem, por exemplo, aceitar que a dívida da Madeira, resultante de investimento público, que de algum modo beneficiou a população (não cabe aqui desenvolver o tema dos maus investimentos e erros que se conhecem, alguns comentados neste blogue), tenha um tratamento discriminatório pelo Estado Central face a outras dívidas, como a recente dívida/fraude no BES, resultante de benefícios puramente privados e do capitalismo selvagem, sem regulação ou com fraca regulação, que põe muita coisa em risco no País.

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A propósito:

(a) Evolução ou Continuidade: reflexões sobre o sistema autonómico da Madeira de Antero Monteiro Diniz, ex-Ministro/Representante da República para a Região Autónoma da Madeira, publicado em 2013. Refira-se ainda a entrevista concedida à revista Islenha de Junho de 2007, incluída no referido livro.

(b) Há quem defenda que o limite da Autonomia são os atributos da soberania, do Estado: política externa, defesa, segurança, segurança social e direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Autonomia não é independência.

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Nota (1)

Ao folhear o livro com algumas ideias (pouco ortodoxas) do Papa Francisco (Palavras de Esperança, Terreiro do Paço Ed. 2013), deparei-me com a seguinte perspectiva sobre a autonomia: «O homem de hoje experimenta o desenraizamento e o desamparo. Leva-o afã desmedido de autonomia herdado da modernidade» (p.32).

Penso que não é só o desenraizamento e o desamparo que o preocupa. O homem livre, inconformado, autónomo e no "controlo" do seu destino, no que está ao seu alcance controlar, faz as suas escolhas, que pode passar por não escolher o «amparo» e as «raízes» (autoridade) da religião, e até da própria fé, que ajudam, como o estoicismo (obediência à natureza, ao decurso natural do universo e à razão), a aliviar e a ultrapassar o sofrimento: a manter a serenidade perante tanto as tragédias e as alegrias, isto é, a suportar as dificuldades inerentes à vida, confiando no destino (abdicar do controlo para ter mais controlo emocional). A individualidade e a autonomia não cria muitos fiéis nem enche igrejas porque aqueles valores não conduzem à passividade e ao colocar-se nas mãos de outros, como pretendem muitas formas de amparo (e quem não quer amparo?). Os poderes gostam muito de rebanhos.

segunda-feira, Agosto 04, 2014

Jornais regionais sobre a eleição da Madeira como melhor destino turístico insular

Destaque na imprensa regional do facto de a Madeira ter sido eleita como o Melhor Destino Insular da Europa, pelo segundo ano consecutivo, pelos World Travel Awards, os Óscares do turismo. A cerimónia teve lugar no passado sábado, na Grécia.

Uma boa notícia para a economia regional e um importante reconhecimento. Quando o mundo parece enlouquecer, na Madeira e Porto Santo os turistas podem encontrar paz, segurança, clima temperado, aventura e paisagens intensas.

Mais informação:

WTW: http://www.worldtravelawards.com/award-europes-leading-island-destination-2014
Diário: http://www.dnoticias.pt/sites/default/files/Prim_04-08-2014.pdf
JM: http://62.28.148.29/php/pdf/2014/08/04/flash/2014-08-04.php

domingo, Agosto 03, 2014

«Fugimos a defrontar-nos com a realidade nua e crua»

Aos portugueses falta civilização: mais educação, civismo, organização, profissionalismo, realismo e centrar-se no essencial
(foto copyright Ricardo Castelo/jornal I)

A evidência dá conta que «fugimos a defrontar-nos com a realidade nua e crua», como verbaliza o investigador Manuel Sobrinho Simões (entrevista no jornal I de 2 de Agosto de 2014, por Isabel Tavares), transformando os portugueses em mestres nos rodeios, no acessório, no politicamente correcto, e isso torna-nos menos eficientes.

Como coloca Sobrinho Simões, a «palavra apreender, mesmo compreender, é sempre à superfície. É engraçado, porque somos miméticos, mas a linguagem, a descrição, o que embrulha, é quase mais importante do que a coisa em si, e isso tira-nos a capacidade de ser eficientes.» E acrescenta: «nós somos assim, circulares, porque nunca precisámos de mostrar eficiência.»

Daí que «adoramos retórica, discursos labirínticos, achamos que isso é que nos torna interessantes. Não percebemos a ideia de que tempo é dinheiro. Uma coisa que noto nos meus alunos, entre cá dentro e lá fora, é que lá fora sabem distinguir muito bem o essencial do acessório. Aqui ir directamente ao ponto é demonstrar fragilidade.» Diria mais, é como se estivéssemos errados, a atacar alguém, a tocar num assunto proibido, a cometer algum sacrilégio ou má educação.

A retórica e o falar bem interessam-nos mais do que a realidade. Essa distância da realidade é para esconder uma coisa: a incompetência. Não há como ser bem falante e, já agora, vestir bem para esconder a incompetência. Um país de incompetência e falcatruas, estas que são também uma fuga à realidade, no sentido de iludir e ludibriar os outros. O escândalo recente no Banco Espírito Santo é ilustrativo ao mais alto nível.

Diz-nos que o que «falta é organização e saber avaliar, uma vez mais porque somos todos primos de primos [e amigos] e não introduzimos mecanismos de recompensa-castigo.» Mais adiante reforça que «não podem ser os pares [a avaliar], numa sociedade com muito pouca tradição de avaliação e com muito pouca independência.»

Mimetizarmos os noruegueses, por exemplo, «exigiria que tivéssemos regras e que as cumpríssemos. Enquanto não foi preciso produzir riqueza, nós, como organização social, que não era boa, aguentámos» várias provações. Agora, que os tempos são outros, a grau de organização e de civilidade têm de ser outros.

A esse propósito Sobrinho Simões sabe, por trabalhar «muito com a República Checa, a Polónia e a Eslovénia, [que] eles são mais educados que nós. Se se puser um problema de competição, eles ganham. A Europa de Leste passou a ser mais um factor de pressão sobre Portugal e agora estamos a competir com a Lituânia, a Letónia, a Estónia e a Bulgária.»

Dá um exemplo dos benefícios se fossemos mais civilizados: «diminuiríamos muito os gastos do sistema de saúde se fossemos mais educados, mais bem comportados do ponto de vista social, se tivéssemos melhores hábitos. Faríamos economias pelo lado da prevenção.»

Constata que «nós somos invejosos, não somos vigilantes» de forma a incutir nos outros educação social. E ainda «como somos muito individualistas e invejosos, temos uma extrema dificuldade em nos associarmos».

Uma última nota sobre a ideia de que «deixou de ser compensador ser muito bom, muito sério e muito trabalhador. Pior: é quase estúpido. Os smart kids ingleses já não vão para Medicina, nem para Engenharia, vão para a política. Ou para a banca. Estamos a dar cabo das profissões.» 

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A propósito:
Endémica recusa da realidade: o que dá é não fazer nada

domingo, Junho 22, 2014

Endémica recusa da realidade: o que dá é não fazer nada

 Bartoon 17.6.2014

Aderir à realidade foi sempre uma dificuldade nacional. Preferimos disfarçá-la e evitá-la, porque enfrentá-la implica mudar de vida, fazer alguma coisa. E isso, além de muito trabalho para si e para os outros, cria inimigos e complicações. Essa coisa maçadora de fazer melhor, de exigir, de obrigar-se, de disciplinar-se, de responsabilizar-se... Está tudo organizado para não se fazer nada.

Não fazer nada é "mais produtivo", no sentido comezinho, porque assegura a cómoda sobrevivência e a fácil ascensão. Além de popularidade (sermos porreiros). Não fazer nada traz recompensas. O estímulo é para ficar calado, não fazer ondas, promover a paz podre e o compromisso, para tudo ficar na mesma, as águas estagnadas, enfim, o pântano. Uma herança salazarenta.

Não se percebe, pois, que a frontalidade, o confronto, mesmo de firme e duro, de ideias e propostas, produz mais e melhores resultados do que o unanimismo, o facilitismo, a mistificação, o estar bem com tudo e todos ou o silêncio. Mas quem quer melhorar, realmente, resultados? Basta mexer nas estatísticas e atingem-se os resultados sem ter que mudar nada, sem nada fazer. E há ainda essa praga anti-mudança chamada «politicamente correcto».

Tudo se faz para esconder a mediocridade, a estupidez, o ineficaz, o errado, o improdutivo.

A confirmar esta realidade, Marcelo Rebelo de Sousa disse numa recente entrevista (Revista Expresso 31.5.2014): «Guterres, uma vez, deu-me um conselho: não faça nada, porque se não fizer nada será primeiro-ministro. O meu problema foi mexer-me demais.» Quando alguém procura fazer alguma coisa de significativo as forças de bloqueio, os aparelhos minam tudo («o que fica pelo meio impecilha a decisão», refere Marcelo Rebelo de Sousa). Sá Carneiro acabou, inclusive, morto.

A consequência de tudo isto? Demorarmos ou até nunca arrepiarmos caminho. Daí sermos menos produtivos e eficazes do que outros povos, nomeadamente do norte da Europa, em que se inclui a França, com a sua latinidade.

«Só que, de quando em quando, nos cai a Alemanha [selecção de futebol] na cabeça ou uma dívida inexplicável, que levará a pagar 30 e tal anos. Como raio estas coisas nos podem suceder?», diz Vasco Pulido Valente em artigo de opinião (Público 20.6.2014) sobre a nossa endémica recusa em aderir à realidade, que nos impede de melhorar (alterar essa realidade negativa).

O que queremos é escapismo e inércia. Até ao dia em que somos atropelados pela realidade... Já Eduardo Lourenço escreveu, em 1978, no livro O Labirinto da Saudade: Psicanálise Mítica do Destino Português:

«É pena de Freud não nos tenha conhecido: teria descoberto, ao menos, no campo da pura vontade de aparecer, um povo em que se exemplifica o sublime triunfo do princípio do prazer sobre o princípio da realidade

Mais palavras, para quê?

Se quer ser um/a gajo/a porreiro/a, sobreviver e ascender em terras lusas... não olhe a realidade, cultive o politicamente correcto e, sobretudo, não mude nada, não faça nada.

terça-feira, Abril 01, 2014

Steve McQueen's 12 Years A Slave

Steve McQueen, realizador de 12 Anos Escravo
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Filme denso, brutal e perturbante, que mostra a que ponto o ser humano pode ser cruel e infligir sofrimento atroz a outros seres humanos. A forma como está realizado por Steve McQueen faz a diferença: envolve e causa forte impacto no espectador.

Não há paninhos quentes. Há emoções fortes. Sentimos e "vivemos", numa atmosfera opressiva e de enorme violência psicológica/emocional, o desespero de quem se vê à mercê da tirania, da irracionalidade e da selvajaria sem perdão.

Recorde-se que acabou por ser premiado como melhor filme no Óscar 2014. Ganhou ainda os prémios Roteiro Adaptado, Melhor Actriz Secundária e “Melhor Filme”.

O prémio de Melhor Filme é também o primeiro Óscar de Brad Pitt, que é produtor de 12 Anos Escravo. Realizada por Steve McQueen, a obra é baseada nas memórias de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), negro livre do Norte dos Estados Unidos que é sequestrado e vendido como escravo.
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Entrevista
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segunda-feira, Março 31, 2014

Martin Scorsese's The Wolf of Wall Street

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The Wolf of Wall Street é brutal, ousado, vertiginoso, sem panos quentes (cru), qualidade que aprecio num filme. Baseado em eventos reais, há dinheiro, sexo e drogas em quantidades industriais. A natureza humana no seu esplendor, potenciada pelos meios materiais e pelo poder.

Ao mesmo tempo que se simpatiza com a força, a resistência, as origens humildes e a ambição do protagonista (não se consegue antipatizar com Jordan Belfort interpretado por Leonardo DiCaprio) é chocante ver que não olha a meios para atingir os seus fins.

É elucidativo quanto à forma selvagem (prepadora) como funciona certo sistema financeiro, para enriquecimento de alguns, à custa de muitos - não se pode deixar de pensar na actual crise, que estamos a pagar, por causa da ganância (e concentração de riqueza) em termos absurdos e grotescos (regulação e legalidade precisam-se). Interessa acima de tudo vender bem, mesmo que seja lixo (produtos tóxicos), simplesmente enganando/roubando os outros com a maior das alegrias e naturalidade.

Grande filme realizado pelo mestre Martin Scorsese, sendo também produtor em parceria com Leonardo DiCaprio. Três horas que passam num instante. Saí da sala convencido que tinham passado apenas cerca de duas horas... pensei que o relógio do carro estava na hora antiga. Sai-se também da sala com muito para reflectir sobre o materialismo extremo (ter) e a valorização da imagem/personalidade/fama (acima do carácter ou do ser) porque o que importa é vender (parecer).

Hoje, vende-se, compra-se, vota-se e até se ama pela imagem, paleio e primeira impressão...

NOTA:
não estou aqui a fazer leituras inquinadas ideologicamente, nem a condenar o mercado (justo) nem o consumo (moderado), quando são positivos e benéficos para as pessoas, individualmente, e a sociedade em geral. Nem tão pouco a querer mal ao dinheiro, porque ele dá jeito e conforto, não sejamos hipócritas. E muito menos com falsos moralismos quanto às outras duas realidades salientes no filme, sexo e drogas, que são da conta de cada um. E viva a liberdade e as oportunidades para cada pessoa alcançar os seus sonhos e, no reverso da moeda, assumir as suas responsabilidades.

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domingo, Março 30, 2014

Liberdade de escolha do vício

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Não fumo, mas concordo que cada qual tenha direito a escolher como viver (com prazer) e como chegar/enfrentar o fim.

Apenas peço que se respeite a liberdade de quem tenha escolhido outro vício e não quer fumar passivamente, sem a liberdade e o prazer gozados pelo fumador, liberdade e prazer a que tem, repita-se, direito ;)

sábado, Março 29, 2014

«Falar de coisas concretas não adianta nada»

«É fundamental o tempo não produtivo, o tempo da cultura», defende o escritor Gonçalo M. Tavares

Ainda no âmbito da edição do Festival Literário da Madeira 2014, Gonçalo M. Tavares terminou a sua conversa, a respeito do seu livro Atlas do corpo e da imaginação, dizendo que é preciso «perceber as essências nestes tempos mais violentos, economicamente».

E, por vezes, o «essencial está na periferia», referindo que o «imaginário tem a ver com o desviar do olhar para o que está à volta e além do que é mais óbvio e dominante», seja numa imagem ou num texto. Significa «ver outra coisa que não nos é mostrado» ou transmitido.

Para o escritor, «ler é mais ver imagens à volta da frase do que ler a própria frase.» Por isso, o «bom leitor é aquele que não fica só na frase que lê». Bem como uma «imagem também tem outras imagens à volta.»

Ao longo da conversa, Gonçalo M. Tavares foi comentando uma série de imagens que integram o Atlas do corpo e da imaginação, tendo sublinhado que se «deve parar nas imagens», saber «pensá-las e digeri-las». E «não dizer sempre formidable às imagens que passam à nossa frente».

No seu entender, «falar de coisas concretas não adianta nada», querendo dizer que os «artistas devem ter entrada na actualidade de um forma diferente, para acrescentar algo», de modo a não entrar em cima do imediato.

Define como «fundamental o tempo que não é produtivo, o tempo da cultura», apesar de ler ser um «luxo existencial», que não existe para quem as necessidades básicas, de sobrevivência, satisfeitas (embora mesmo em tempos de prosperidade, o consumo de cultura no País não tenha sido, proporcionalmente, muito diferente). Sustenta que a «pobreza não tem tempo» e «não pode esperar». Exemplificou com o assalto ou «transferência massiva de macieiras» desde 2008, em que as pessoas, para acudir situações urgentes, não vendem apenas as maçãs, mas também as próprias macieiras, que lhes asseguraria o futuro.

Ora, «ler não dá algo de imediato», acrescentando que «cultura é o contrário de informação», isto é, «cultura são informações digeridas ao longo do tempo». Em tempos de crise «desvaloriza-se certas actividades que não dão fruto de imediato». Por isso, «ler é associado a uma actividade inútil».

Falou da importância do «decidir sobre o que pensar», para não se deixar levar no ruído da actualidade, que muitas vezes não traduz a realidade, mas que ocupa as conversas e o pensamento das pessoas, com a tendência a uniformizar tanto as conversas como o pensamento. Com toda a gente a falar e a pensar os mesmos temas e assuntos.

Por fim, uma nota sobre a importância das «referências», que são um ponto fixo, que são feitas para períodos de crise, com o efeito de «tranquilizar» as pessoas. Daí defender que «não se devem mudar em tempo de crise.» Apelidou isso de «absurdo». As leis, «a voz colectiva» que «dura no tempo» («só me muda quando é melhor ou aparece algo totalmente novo» - as «ditaduras vivem de mudanças repentinas de lei»), são um importante referencial («impõem um conjunto de relações entre as pessoas»), notando que a Europa tem as leis com que mais se identifica.

No entanto, estão a acontecer mudanças para leis menos humanistas, com o económico a se sobrepor à política, o que «é perigoso». Tal como quando o militar se sobrepõe à política. As leis nem sempre são éticas e boas, já que são frases escritas por pessoas, sendo importante «saber quem as escreve».

Alertou ainda para o facto de se dizer "isto é o mal" é «começar a fazer pontaria», mas que o «mal é mais um questão "do quê" e não "do quem".»

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A propósito:
«Cultura permite que as pessoas aumentem a lucidez»
Arte não se submete a nada nem a ninguém
Portugueses não olham para a cultura como bem essencial 

terça-feira, Março 25, 2014

Cultura, a «única eternidade terrena»

"A única eternidade terrena é a cultura." — Adriano Moreira na Visão #1098 de 20.3.2014
nota:
na mesma entrevista, pouco depois da frase citada, afirma o seguinte: «A sobrevivência é o único inferno que tem de se viver».

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A propósito:
Portugueses não olham para a cultura como bem essencial 
«Cultura permite que as pessoas aumentem a lucidez»